Jornal da Universidade Federal do Pará. Ano XXX Nº 130. Abril e Maio de 2016

Exclusivo On line: No Lago do Segredo mulheres também pescam


por Daniel Sasaki / Abril e Maio de 2016
foto Nádia Rocha



Na sociedade, em algumas situações, ainda se observa a presença de um sistema patriarcal, em que há uma divisão de trabalho de acordo com o gênero. O homem estaria responsável por atividades relacionadas ao poder de decisão, enquanto as mulheres estariam destinadas a cuidar da casa, dos filhos, do preparo de alimentos, de atividades voltadas ao lar. No território amazônico, por causa da quantidade de rios, a pescaria é uma prática comum, mas ainda é vista como uma prática totalmente masculina.

Com o intuito de quebrar essa visão estereotipada da atividade pesqueira na Amazônia, o Projeto de pesquisa “Pescando conhecimentos: mulheres da Amazônia”, coordenado pelo professor Sérgio Moraes, diretor do Núcleo de Meio Ambiente (Numa) da Universidade Federal do Pará, realizou pesquisas no Lago Segredo, localizado em Capanema, nordeste paraense. No local, há uma grande quantidade de mulheres que realizam a pescaria.

De acordo com o professor, o objetivo da pesquisa foi caracterizar a pesca desenvolvida por mulheres e identificar o papel delas e das relações de gênero no universo da pesca artesanal nas águas amazônicas. “O nosso objetivo foi identificar a importância da pesca neste cenário, uma vez que a literatura que fala sobre a mulher na pesca diz, exatamente, que ela é invisível na atividade, que as mulheres desenvolvem mais atividades em terra, seja consertando rede, seja tratando do peixe. Nós queríamos mostrar que nem sempre é isso que ocorre”, explica Sérgio Moraes.

A pesquisa teve início em 2010 e contou com uma equipe de cinco integrantes, além do professor. Até 2012, o trabalho teve apoio e financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Pesca é complementação da renda e atividade terapêutica

O professor Sérgio Moraes conta que o primeiro contato com o grupo de mulheres desenvolvendo a atividade pesqueira se deu pela disciplina que ministrou em Capanema, na época, Núcleo da UFPA. “Uma das alunas do núcleo em que ministrava as aulas queria que eu conhecesse a sua comunidade, chamada Segredinho. Ela queria que eu visitasse o local, pois há forte influência do mito na origem do lugar, e o mito foi um dos assuntos tratados na disciplina. Porém, para minha surpresa, o que chamou minha atenção na comunidade foi a grande quantidade de mulheres envolvidas na atividade pesqueira no Lago Segredo”, conta.

A atividade praticada pelas mulheres impressionou o professor, que começou a escrever sobre o grupo. Em 2010, conseguiu um financiamento para que o projeto de pesquisa fosse aplicado. “Com o financiamento, eu pude desenvolver a atividade com mais intensidade. Levamos alunos do Mestrado Profissional do Núcleo de Meio Ambiente para auxiliar nas pesquisas”, relembra.

Segredinho tem uma ligação político-geográfica com Capanema, município localizado a 142 quilômetros de Belém. A comunidade tem, em sua formação histórica, heranças indígenas que influenciaram o cotidiano atual. Segundo os moradores, os índios foram os primeiros a descobrir o Lago Segredinho, cujos recursos naturais favoreceram a chegada das primeiras famílias. A comunidade possui 142 famílias, com uma média de cinco a seis pessoas por família.

As mulheres pescadoras são, em sua maioria, jovens, mas também há a presença de mulheres maduras. Além da prática da pesca, a maioria também exerce a função de dona de casa e dedica-se totalmente a essa função nos períodos de baixa temporada da pesca.

De acordo com Sérgio Moraes, a pesca por mulheres é costumeiramente realizada durante o período da noite e só termina na manhã do dia seguinte. A pesquisa apontou que, além de contribuir com a renda familiar, a atividade também funciona como um lazer. “Mais do que uma complementação da renda, a atividade funciona como uma atividade terapêutica. Muitas mulheres que, à primeira vista, não teriam a necessidade de desenvolver a pesca afirmaram que se sentiam muito bem pescando, que aquilo fazia parte do cotidiano e não se viam fora daquela atividade”, revela.

Homens veem as mulheres como parceiras de trabalho

Não há uma confirmação sobre como a prática pesqueira começou a ser realizada pelas mulheres da Comunidade Segredinho. Para o pesquisador, isso ocorre por conta da questão cultural que envolve a região, onde o saber em ação não é repassado oralmente, mas de maneira prática. “Nós temos um processo de ensino aprendizagem quase que integralmente baseado na oralidade. Desde pequenos, nós aprendemos ouvindo e queremos ensinar falando. Essas populações nem sempre aprendem ouvindo, elas aprendem fazendo. E, às vezes, elas não sabem dizer como fazem, pois elas não aprenderam ouvindo, elas sabem fazer”, esclarece Sérgio Moraes.

Com isso, a pescaria realizada pelas mulheres de Segredinho mostra-se como uma atividade passada entre gerações, em que o ensinamento é realizado pelas mulheres mais experientes do grupo. “Elas aprenderam com as avós e com as mães. A pesca é uma atividade tradicional, que vai passando de geração a geração”, afirma.

Outra singularidade em relação à comunidade é como os homens veem a prática realizada pelas mulheres. No local, não há tabu ou qualquer forma de preconceito, pois os homens veem a atividade como algo tradicional da região.  De acordo com o pesquisador, toda tradição em determinada comunidade predispõe o respeito a ela, o que faz com que essa tradição se mantenha. “Esta tradição da mulher na pesca é muito bem aceita pelos homens, eles as veem como parceiras. Não acham que a pesca é uma atividade eminentemente masculina, ou seja, não há uma divisão de gênero do trabalho”, ressalta.

Pesquisa trouxe visibilidade para a mulher pescadora

A pesquisa deu origem às duas dissertações. Uma delas foi A Pesca Feminina na Comunidade Segredinho/Capanema-PA, pesquisa desenvolvida no período de dezembro/2009 a janeiro/2011 por Nádia Rocha, sob a orientação de Sérgio Moraes.

A estudante conta que a pesquisa se deu por meio da inserção no campo de atuação para a identificação das mulheres que desenvolviam a atividade pesqueira na comunidade. “Após o levantamento das características gerais da comunidade, passei a acompanhar as mulheres na atividade da pesca. Inseri-me na realidade da comunidade e pude acompanhar vários momentos ligados à pesca, às manifestações culturais em torno do Lago, e pude analisar como a pesca é um elemento que direciona todos os aspectos da vida dessas mulheres”, explica.

Para Nádia Rocha, estudar esse grupo de mulheres desmistificou muitos conceitos ligados ao trabalho da mulher na pesca. “Infelizmente, a literatura acadêmica ainda traz o homem como pescador e a mulher como ajudante ou alguém que fica no interstício da atividade. O trabalho trouxe visibilidade para a mulher pescadora”, conclui a estudante.

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