Jornal da Universidade Federal do Pará. Ano XXX Nº 130. Abril e Maio de 2016

Cinejornal conta a história da cidade

Da esquerda para a direita: Baile das Flores, cortejo
fúnebre de Magalhães Barata e José da Silveira Neto
na Escola Primária da UFPA.

por Maria Luisa Moraes / Abril e Maio de 2016
foto Acervo do Projeto



Nos anos 1950, a televisão chegava ao Brasil ainda em preto e branco e com um pequeno alcance, visto que, por ser novidade, era um item caro e presente em poucas casas brasileiras. Neste cenário, o rádio e o jornalismo impresso eram as principais formas de propagação de notícias no País. Em Belém e em outras capitais, havia também os cinejornais, que precedem a própria TV, existindo desde as primeiras décadas do século XX. Eram curtas-metragens de conteúdo noticioso que antecediam os filmes nas sessões de cinema.

Com a vontade de resgatar esse material, surgiu o Projeto “A Produção de Cinejornais no Pará nas décadas de 1940, 1950 e 1960”, criado e coordenado pela professora Ana Lucia Lobato de Azevedo, da Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal do Pará (FAV/UFPA). “São filmes que têm relevância para quem estuda a história do cinema. No caso específico de Belém, soma-se, ainda, o fato de que esses são quase a única produção cinematográfica que existe na cidade, naquele momento”, explica.

Os cinejornais eram exibidos em várias cidades brasileiras além de Belém, mas a produção concentrava-se em capitais de maior porte, como São Paulo e a capital federal da época, Rio de Janeiro. Eles começaram a ser produzidos no início do século XX e existiram até meados dos anos 1980, sendo, gradativamente, substituídos pelos jornais de televisão. “A produção do jornalismo televisivo passa a ter mais agilidade e dinamismo que os cinejornais, que levam certo tempo para chegar aos cinemas, considerando-se as formas de produção da época”, lembra Ana Lucia. No caso de Belém, era um processo ainda mais lento, pois o material filmado era enviado para o Rio de Janeiro para gravação da locução, edição de som e mixagem, só então se chegava à cópia final, aquela que seria exibida nos cinemas.

Esses filmes eram compostos por várias notícias que tratavam de política, moda e cultura, entre outros assuntos. Eles poderiam conter apenas uma notícia, ou várias, o mais comum era que apresentassem mais de uma. Havia, também, as edições especiais, que cobriam um evento específico, como a morte de algum político ou artista célebre.

Em pauta: a  política, a cultura e os costumes

Os cinejornais constituem uma produção extremamente importante, seja como fonte de conhecimento da história do cinema brasileiro realizado no Pará, seja como fonte de conhecimento da história do Estado, pois são imagens raras abordando alguns interessantes aspectos da vida local. “São importantes, portanto, para o conhecimento das atividades político-culturais, dos costumes, das mentalidades em vigor na cidade de Belém e do Estado do Pará naquele momento,” avalia Ana Lucia Lobato de Azevedo.

A professora foca sua pesquisa em dois cineastas do cenário paraense, Líbero Luxardo e Milton Mendonça. Nos anos de 1940 e 1950, a produção dos cinejornais em Belém ficou a cargo de Líbero Luxardo. Ainda nos anos 1950 e na década seguinte, Milton Mendonça também começou a produzir. Segundo a pesquisadora, Milton produziu cinejornais até meados da década de 1960.

De acordo com Ana Lucia, grande parte dessa produção perdeu-se ao longo dos anos, em decorrência da falta de conservação, o que dificultou a pesquisa. “Muito pouco restou desses filmes. Em relação à produção de Líbero Luxardo, por exemplo, eu consegui localizar apenas um cinejornal, de 1959, uma edição especial sobre o falecimento de Magalhães Barata, político importante na história do Pará”, relata.

Esse vínculo entre os cinejornais e a política era comum, em virtude do apoio econômico oferecido pelos políticos a essas produções cinematográficas. Ana Lucia cita como exemplo que, em São Paulo, existia um cinejornal aliado ao então governador do Estado, Adhemar de Barros, e, no Rio de Janeiro, destaca-se o Cine Jornal Brasileiro, produzido pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), ligado ao governo de Getúlio Vargas, durante o Estado Novo.

A Província do Pará também foi fonte de pesquisa

Para fortalecer a pesquisa e suprir a inexistência de alguns filmes, Ana Lucia Lobato de Azevedo pesquisou também em outras fontes, principalmente nos jornais impressos. Naquele momento, havia dois jornais principais em circulação no Estado: A Província do Pará e a Folha do Norte. A pesquisadora conta que Magalhães Barata e Paulo Maranhão, proprietário e editor-chefe da Folha do Norte, eram inimigos ferrenhos. Por esse motivo, os cinejornais realizados por Líbero Luxardo e vinculados ao político paraense não eram divulgados pelo jornal de Paulo Maranhão. Por essa razão, a pesquisa  concentrou-se no Jornal A Província do Pará.

Hoje, esses jornais antigos só são encontrados na Biblioteca Pública Arthur Vianna, porém faltam exemplares de diversos períodos da década de 1940. Em 1955, os cinejornais realizados por Líbero Luxardo ganharam o título de Amazônia em Foco e passaram a ter produção seriada, podendo-se constatar, nesse momento, a existência de uma das características da produção de cinejornais, a periodicidade. Essa periodicidade, entretanto, era um tanto irregular, como se pode observar pelos anúncios localizados. “É importante dizer que tal situação não era uma prerrogativa da produção paraense, de modo que os cinejornais realizados em outros Estados brasileiros enfrentavam o mesmo problema”, alerta.

Armazenamento – Já durante os anos 1960, Milton Mendonça foi o principal realizador dos cinejornais no Pará, porém seus filmes também sofreram com a falta de armazenamento em condições adequadas. O cineasta teve o que restava de sua obra restaurada em 2008, por meio de Edital do BNDES, no entanto as películas não estão na íntegra. “Temos vários trechos de filmes misturados, parte de um cinejornal está colado a trecho relativo a outro cinejornal, as notícias se repetem, não sendo possível reconstituir os filmes da forma como foram feitos e exibidos. Foi possível datar o período aproximado a que eles se referem, em função das notícias divulgadas”, explica a professora.

A produção de Milton Mendonça é ligada ao governo de Aurélio do Carmo, governador que acabaria sendo deposto pelo Golpe Militar, portanto, no material existente, o maior número de matérias diz respeito às ações do seu governo. Importantes instituições também tinham destaque nesses cinejornais: “são veiculadas, por exemplo, notícias a respeito do Banco de Crédito da Amazônia (BCA), da Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia (SPVEA)”, conta a pesquisadora.

Além da importância histórica, deve-se levar em conta que a realização de filmes no Pará daquele momento, seja por profissionais, seja por amadores, era extremamente rara, demandando equipamentos e materiais caros aos quais poucos tinham acesso.

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