Jornal da Universidade Federal do Pará. Ano XXX Nº 130. Abril e Maio de 2016

Fortalezinha vista pelos seus moradores

A exposição "Patrimônio (in)Visíveis" levou para o
vilarejo os resultados da pesquisa.

por Hojo Rodrigues / Abril e Maio de 2016
foto Acervo do Pesquisador



“O lugar é, absurdamente, lindo”. É assim que a fotógrafa e estudante de Museologia da Universidade Federal do Pará Flávia Souza descreve Fortalezinha, comunidade localizada na ilha de Maiandeua, município de Maracanã, no nordeste do Estado, vilarejo da região do Salgado paraense que inspirou o Projeto de pesquisa “Patrimônios (in)visíveis – A fotografia documental como processo de investigação artística”.

Com os estudos sobre patrimônio realizados na graduação, Flávia sentiu-se instigada ao perceber que, normalmente, são os órgãos institucionalizados que determinam o que é oficialmente patrimônio em uma comunidade, em um Estado ou em uma Nação, deixando de fora da eleição os usuários dos patrimônios. A fotógrafa pensou, então, em uma maneira em que a comunidade pudesse eleger seu próprio patrimônio, com base em memórias, heranças culturais e símbolos presentes no seu cotidiano.

Com o lançamento do edital do IV Prêmio de Arte e Cultura pela Pró-Reitoria de Extensão da UFPA, Flávia Souza viu a oportunidade de realizar uma pesquisa acadêmica e artística em Fortalezinha e viver a Museologia na prática. O projeto foi vencedor em 2014, com vigência de março/2015 a março/2016. A pesquisadora realizou sete visitas ao vilarejo e fez mais de 40 entrevistas.

A metodologia mesclou entrevistas gravadas, trabalho de campo, vivência e troca de saberes com os habitantes. No entanto a noção de patrimônio apropriada por eles é diferente da noção acadêmica. “O conceito de patrimônio é abrangente, sobretudo, é aquilo que nos pertence, que está na memória ou o que uma localidade nos oferece, então, eu perguntava aos moradores o que eles mais gostavam na comunidade ou o que mais identificava o lugar”, explica.

Resultado: visibilidade aos patrimônios invisíveis

Fortalezinha tem muitos moradores surdos. Flávia Souza, com o apoio dos professores do Grupo “Mãos que Comunicam”, organizou uma roda de conversas com os deficientes auditivos para explicar o projeto. Tudo o que ela falava era traduzido em LIBRAS pelos professores. Para surpresa da pesquisadora, a maioria dos surdos identificou o carimbó, tradição forte na ilha, como patrimônio imaterial.

Flávia viu a fotografia não apenas como ferramenta de registro da pesquisa, mas também como um meio de refletir sobre conceitos de patrimônios, heranças e atividades culturais. “A fotografia gera conhecimento. Ela deu visibilidade a esses patrimônios invisíveis”, explica.

“A exposição fotográfica é o produto que mostra o resultado final das pesquisas”, destaca ela, que realizou a primeira exposição do projeto em Fortalezinha, agradando tanto os moradores da comunidade quanto os turistas. Já na exposição realizada no hall do prédio da Reitoria da UFPA, Flávia foi parabenizada por muitas pessoas por causa da sensibilidade artística, ao mostrar o cotidiano do vilarejo.

Além da exposição, foram realizadas as oficinas “Elaboração de Projetos Culturais”, ministrada pela museóloga Deyse Marinho; “Desvendando Patrimônios Locais” e “O Universo Sensível da Câmera Obscura”, ministradas por Flávia e pela fotógrafa Marise Maués. Essas duas últimas foram destinadas às crianças e aos adolescentes da comunidade.

Paraíso dos Coqueiros – Nas oficinas, a maioria das crianças desenhou pessoas dançando carimbó, enquanto os jovens desenharam o Paraíso dos Coqueiros. “Talvez pelo fato de ser um lugar de onde se tem uma visão panorâmica da praia, o Paraíso dos Coqueiros é muito procurado pelos jovens para namorar”, explica Flávia Souza.

Durante a pesquisa, foram identificados alguns símbolos que representam Fortalezinha, eleitos pelos moradores do vilarejo. A Casa de Pedra e as ruínas da igreja Estrela do Mar estão na memória dos moradores. A paisagem, que inclui a praia, o mangue e até o vento, é classificada como patrimônio natural. A Festa da Iluminação, evento realizado no dia 2 de novembro, quando os moradores homenageiam seus antepassados; as brincadeiras infantis; a arquitetura nativa; a pesca e o surf também são considerados patrimônios. “Tudo o que está na exposição foi identificado pelos moradores”, explica Flávia. A fotógrafa pretende continuar com o projeto e pensa na construção de um museu no vilarejo. “Tive, nesta experiência, a confirmação do que quero fazer dentro da Museologia”, conclui.

comentários (1)
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escrito por Flávia Souza, abril 06, 2016
Fico muito feliz com a divulgação e atenção dada ao projeto pelo jornal Beira do Rio, Fortalezinha é uma comunidade incrívelmente rica em elementos culturais e que pode se desenvolver socio/economicamente a partir de seus patrimônios. Foi muito bom participar desse reconhecimento feito pelos seus próprios usuários e ver como a Museologia, enquanto ciência social aplicada, pode contribuir para tal.
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