Jornal da Universidade Federal do Pará. Ano XXX Nº 130. Abril e Maio de 2016

Cartões, faltas e muito estresse

Momentos de tensão estão presentes antes, durante e
depois das partidas.

por Maria Luisa Moraes / Abril e Maio de 2016
charge Walter Pinto



O brasileiro é um povo efusivo e passional, e uma das coisas que nos fazem vibrar é o futebol. Reações intensas, como lágrimas, gritos, pulos de alegria e xingamentos, são comuns quando estamos nos estádios ou mesmo quando acompanhamos as partidas pela televisão. Figuras bastante conhecidas desse universo, as quais, quase sempre, são alvos dessas reações, são o árbitro ou o assistente, popularmente chamado de “bandeirinha”.

O profissional de arbitragem tem o papel de mediar o jogo e identificar lances irregulares que podem resultar em punições, como cartões, pênaltis, faltas, além de controlar o tempo do jogo, apitando o início e o fim das partidas e determinando os acréscimos, quando for necessário.

Em razão de toda essa pressão e da cobrança dos atletas, das comissões técnicas, dos dirigentes, dos torcedores e da imprensa para que não cometam erros, muitos desses profissionais desenvolvem doenças ligadas ao estresse, como a Síndrome de Burnout. O professor Daniel Alvarez Pires, da Faculdade de Educação Física do Campus de Castanhal, desenvolveu a pesquisa “Percepções da Síndrome de Burnout entre árbitros de futebol”, que investiga melhor esse assunto.

A Síndrome de Burnout é caracterizada pelo estresse crônico relacionado ao trabalho. “No caso dos árbitros, as críticas ao seu trabalho ocorrem com uma frequência maior do que as manifestações de reconhecimento. É quase impossível terminar um jogo sem cometer um erro, pois são centenas de tomadas de decisão ao longo dos 90 minutos. As marcações do árbitro são fiscalizadas por todos no contexto esportivo, deixando-o exposto às críticas, ofensas verbais, ameaças e agressões físicas”, explica Daniel Pires.

A falta de reconhecimento reflete-se na desvalorização do árbitro, que não tem salário fixo, carteira assinada e direito a férias, recebendo por jogos arbitrados. Essa situação obriga os árbitros a terem uma segunda atividade profissional, o que gera uma sobrecarga de trabalho. Essa sobrecarga, aliada, muitas vezes, à reação negativa da comunidade esportiva, torna comum o aparecimento da síndrome.

Tensão está presente antes, durante e depois dos jogos

Essa tensão se manifesta não apenas no momento da partida mas também antes e depois. Antes da partida, a pressão é por uma boa atuação. Durante o jogo, prevalece o estresse envolvendo o relacionamento com atletas, treinadores e torcida, além da autocobrança pelos acertos nas tomadas de decisão.

Depois do jogo, é comum haver reclamações em virtude de possíveis erros cometidos pela equipe de arbitragem. Sobre isso, o professor Daniel Pires ressalta que a cobertura da mídia influencia bastante. “A mídia tem uma grande responsabilidade na construção da imagem do árbitro, pois cria mecanismos para fazer julgamentos, avaliações e discordar do mediador do jogo”, avalia.

Os dados utilizados no estudo foram coletados na Federação Paraense de Futebol (FPF), em Belém, e na Federação Amapaense de Futebol (FAF), em Macapá. Também foram levantadas informações referentes à idade, ao sexo, ao tempo de arbitragem e ao nível de escolaridade. Um inventário com nove itens analisou as três dimensões da síndrome no contexto esportivo: exaustão física e emocional, reduzido senso de realização esportiva e desvalorização esportiva.

Resultados – Segundo os resultados, não há diferença significativa na ocorrência da síndrome entre homens e mulheres. “Imaginamos que, por serem mais emotivas, as mulheres seriam mais propensas ao desenvolvimento da Síndrome de Burnout. Entretanto o estudo não confirmou essa hipótese”, observa o pesquisador.

A pesquisa, feita no Pará e no Amapá, mostrou uma relevante diferença entre os índices de burnout nos árbitros dos dois Estados. No Amapá há uma alta incidência da Síndrome, os árbitros são menos reconhecidos e é menor a perspectiva de realização na carreira. No Pará esse resultado é menor, ainda que a cobrança da torcida, dos clubes e da imprensa no contexto do futebol paraense seja um fator causador de estresse.

Sobre o árbitro Dewson Fernando Freitas da Silva, paraense selecionado para integrar o quadro da FIFA em 2015, o professor ressalta que esse tipo de reconhecimento melhora a autoestima e evita o burnout. Segundo o professor, a preparação psicológica também é importante, pois pode evitar que a empolgação inicial ceda lugar às percepções de estresse. A prática já é adotada pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e pelas federações de alguns Estados.

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