Jornal da Universidade Federal do Pará. Ano XXX Nº 130. Abril e Maio de 2016

Buriti, maracujá e castanha-do-pará

Pesquisador utilizou biomassa residual do refino dos
óleos vegetais para produzir biocombustível

por Daniel Sasaki / Abril e Maio de 2016
foto Alexandre Moraes



Em tempos em que as pessoas estão cada vez mais preocupadas com a emissão de gases poluentes que possam agravar o efeito estufa, processo natural de aquecimento da superfície da Terra, e com a possibilidade do fim de fontes de energia como petróleo e gás natural, aumenta-se a busca por fontes de energia renováveis e não poluentes. Uma das formas de energia limpa é o biodiesel, um biocombustível feito de plantas (óleos vegetais) ou animais (gordura), que pode ser utilizado para vários fins.

Foi essa preocupação que levou o pesquisador Rogério Cunha Brito a elaborar a Dissertação Produção de Ésteres Etílicos Utilizando Rejeito do Processo de Neutralização do Óleo do Buriti, Maracujá e Castanha-do-Pará, sob orientação do professor Luís Adriano Santos, do Programa de Pós-Graduação em Biotecnologia (PPGBiotec) do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da Universidade Federal do Pará (UFPA). Segundo Rogério Brito, a produção de biodiesel por meio de fontes de biomassa surge como uma alternativa de energia limpa e renovável buscando substituir, parcial ou totalmente, o diesel derivado do petróleo, fonte de energia fóssil e não renovável, com prazo de esgotamento.

De acordo com o pesquisador, o objetivo da pesquisa era obter biocombustível de uma matéria-prima de baixo valor econômico. “Como há uma corrida mundial na busca de novos processos para obtenção de energia renovável conhecida como energia verde, os pesquisadores têm experimentado diferentes matérias- primas de baixo custo, com intuito de obter energia limpa e renovável. Esse foi nosso objetivo. Utilizamos uma biomassa residual do refino dos óleos vegetais, para produzir biocombustível”, explica Rogério.

A escolha de trabalhar com o resíduo do refino dos óleos de buriti, maracujá e castanha-do-pará surgiu da preocupação de utilizar uma matéria-prima regional. “Existe um polo de refinaria de óleos vegetais, Beraca Sabará, no município de Ananindeua, que possui uma parceria com a UFPA. Eles encaminham os resíduos que seriam descartados ao Laboratório de Catálise e Oleoquímica para realizarmos o processo de reutilização e reaproveitamento”, afirma o pesquisador.

Resultado final é ponto de partida para novas pesquisas

Rogério Cunha Brito explica que o principal objetivo da sua pesquisa era utilizar os resíduos provindos da refinaria de óleos vegetais e transformá- los em biocombustível. Para isso, foi necessário realizar dois processos: a acidificação e a esterificação. “Os resíduos que seriam descartados foram submetidos à catálise ácida, buscando transformá-los em ácidos graxos, que é a matériaprima do biodiesel. Em seguida, foi realizado o processo de esterificação para, assim, chegar ao produto final”, explica.

De acordo com o orientador da pesquisa, professor Luís Adriano Santos, apesar de todos os problemas enfrentados, o estudo conseguiu cumprir as expectativas. “O processo de pesquisa foi extremamente árduo, como todo trabalho de pós-graduação. Surgiram obstáculos de logística, pois, em alguns momentos, o material acabou e tivemos que solicitar mais. No entanto o Rogério foi até o final e conseguiu executar um trabalho que considero ponto de partida para pesquisas que envolvem outros tipos de matérias-primas, catalisadores heterogêneos e até mesmo biocatalisadores, como as enzimas imobilizadas”, avalia.

Parâmetros – Apesar de não atingir todos os parâmetros estabelecidos pela Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), o resultado da pesquisa excedeu as expectativas. “Conseguimos transformar os resíduos neutros (sabões) em ácidos graxos por meio da acidificação e, a partir destes, obtivemos ésteres etílicos por meio da esterificação. Dos parâmetros exigidos pela ANP, consegui determinar quatro, o que é ótimo para uma pesquisa de dois anos. Atingimos o objetivo inicial: utilizar um rejeito e transformá-lo em ésteres etílicos”, afirma Rogério Brito.

“O que diferenciou esta pesquisa, em relação às outras que trabalham com biodiesel, foi reaproveitar um rejeito vegetal, utilizar um sistema de refluxo vertical e banho de óleo, um sistema simples, que requer pouco consumo de energia, diferenciando do reator. Outro ponto relevante foi a utilização do etanol, um reagente orgânico, não tóxico, utilizado na reação de esterificação, além do pequeno volume de ácido sulfúrico, que, após a reação, não é despejado no meio ambiente, é armazenado para o descarte correto”, explica o pesquisador. Rogério quer continuar a pesquisa e chegar a um produto de qualidade, que possa ser comercializado para, assim, diminuir os danos causados ao meio ambiente.

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