Jornal da Universidade Federal do Pará. Ano XXX Nº 130. Abril e Maio de 2016

Cosplayers, Otakus e Lolitas

Avany, Wanessa e Lêrony escolhem os personagens
de acordo com as suas personalidades.

por Daniel Sasaki / Abril e Maio de 2016
foto Adolfo Lemos



“É algo muito gratificante ser alguém que você admira e se identifica, nem que seja por algumas horas. Apesar de todo o tempo gasto com o preparo e todos os problemas enfrentados, quando eu me olho no espelho, vejo que tudo valeu a pena”. Para Lênory Alessandra, estudante de Letras, caracterizar-se de um personagem fictício é algo que vai além do que apenas vestir uma fantasia, é uma questão de personalidade e identificação.

Foi o intuito de compreender as relações que envolvem a cultura pop japonesa entre jovens e adultos de Belém que levou a antropóloga Paula Ramos a elaborar a sua Dissertação, intitulada Cosplayers, Otakus e Lolitas: etnografia de corpo, gênero e performance no universo da cultura pop japonesa em Belém do Pará, realizada no Programa de Pós-Graduação em Antropologia (PPGA) da Universidade Federal do Pará, sob orientação do professor Ernani Chaves.

De acordo com a pesquisadora, a proposta do trabalho era fazer uma investigação etnográfica e bibliográfica sobre jovens e adultos que fazem parte de grupos da cultura pop japonesa, como otakus, cosplayers e lolitas, baseada no olhar de mulheres que fazem parte desses grupos. “Quando resolvi fazer um trabalho sobre a cultura japonesa, não queria fazer apenas uma descrição, decidi ir além. Realizei o trabalho para mostrar quem são esses personagens sociais, compreender suas identidades, que estão relacionadas com a questão do corpo e da performance”, afirma.

Paula Ramos explica que o cosplay é um termo derivado da expressão inglesa costume play, que seria a representação de um personagem. “Os japoneses adaptaram o termo, mas se preocuparam em realizar o cosplay com uma perfeição ímpar, inspirados nos personagens da sua própria cultura pop”, explica.

Eventos reúnem jovens com interesses em  comum


Em Belém, é comum cosplayers realizarem encontros em eventos direcionados à cultura pop japonesa. Helen Silva é a coordenadora geral de um dos maiores eventos do gênero da capital, o Anime Geek. Para ela, coordenar o evento é poder trabalhar com uma de suas paixões. “Eu participei da organização do primeiro evento em Belém, que ocorreu em 2002. No ano seguinte, fundei um grupo junto com outros amigos, e nosso primeiro evento foi em 2004. Depois de alguns anos, saí do grupo e fiz alguns eventos menores, mais específicos, até retornar, em 2012, com uma nova proposta, que era agregar, em um mesmo evento, tudo aquilo que os jovens usam para se divertir, como games, animes, cinema, música e livros. Assim surgiu o Anime Geek”, conta.

Além de cosplayers, os eventos também são frequentados por outros grupos que se identificam com a cultura pop japonesa, como otakus e lolitas. Paula Ramos explica que há uma diferença entre ser otaku no Japão e no Brasil. “Os otakus, no Japão, são conhecidos como nerds que evitam o contato social. O termo chegou ao Brasil nos anos de 1990, com o sucesso dos desenhos japoneses. O termo otaku começou a ser usado pelos brasileiros apenas para diferenciar o nerd que se identificava com a cultura japonesa”, esclarece a pesquisadora.

De acordo com Paula, apesar de, não necessariamente, se vestirem de acordo com os personagens da cultura pop, como fazem os cosplayers, os otakus também possuem vestimentas de identificação, como camisetas customizadas e acessórios que remetem ao kawaii, termo japonês que significa algo “fofo” ou “bonito”.

Já as Lolitas são mulheres que aderem a uma moda alternativa que remete à Era Vitoriana. «O seu modo de vestir vem agregado ao estilo kawaii, que é “fofo”, “inocente”. Além das roupas, elas também apresentam o comportamento das europeias do século XIX, pois incorporam a maneira de falar, agir e pensar”, explica Paula.

Apesar de a Era Vitoriana representar uma época de opressão à imagem feminina, a pesquisadora afirma que isso não é algo que deva ser relacionado com o comportamento das Lolitas. “Diferente daquela época, quando as mulheres eram obrigadas a agir de certo modo, as Lolitas fazem isso porque querem, sem que ninguém as esteja obrigando”, revela a autora da pesquisa.

Deboche, assédio e preconceito são frequentes

Wanessa Aires, 21 anos, pratica cosplay por causa do seu interesse pelos produtos da cultura pop japonesa, como animações (conhecidas como animes), histórias em quadrinhos (conhecidas como mangás). “Eu sempre gostei de mangás e dos animes que eram exibidos na televisão. Quando cresci, descobri o que era a cultura japonesa e o que significava fazer cosplay. Eu me apaixonei e hoje gasto o quanto posso para produzir cosplay”, afirma.

A jornalista conta que realizar um cosplay requer muita preparação e vai além de apenas se vestir como um personagem. É uma questão que envolve uma identificação pessoal. “Nós passamos horas para ficar o mais parecido possível com o personagem. Não fazemos só a roupa, também é necessário o cuidado em interpretar o personagem escolhido. Eu fico horas pesquisando as poses e o modo de falar. É preciso incorporar, conhecer e pesquisar a fundo o assunto. A escolha se dá por aquele personagem com quem eu me identifico e quero ficar parecido”, explica Wanessa.

Para Avany Martins, 27 anos, apesar de todos os problemas que um cosplayer sofre, como assédio e preconceitos, realizar cosplay é uma atividade que compensa. “Em eventos, é comum sofrermos assédios tanto físico quanto verbal, principalmente dos homens. Também sofremos preconceito, algumas pessoas debocham, dizem que é uma atividade apenas para crianças. Apesar de tudo, é recompensador você ouvir elogios e poder estar ali, vestida de um personagem de quem você gosta e com quem se identifica. É incorporar alguém que você quer ser”, revela a designer gráfica.

A respeito do preconceito sofrido por otakus, cosplayers e Lolitas, Paula Ramos afirma que a sua pesquisa tem o objetivo de desmistificar qualquer imagem errônea sobre esses grupos. “Eu queria desconstruir qualquer pensamento preconceituoso. A minha tentativa foi mostrar que esta não é uma atividade para criança, que a imagem que as pessoas têm deles é errônea. Nessas atividades, existem temas fortíssimos, como gênero, sexualidade e identidade”, conclui a pesquisadora.

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