Jornal da Universidade Federal do Pará. Ano XXX Nº 130. Abril e Maio de 2016

Uma escola itinerante

Pará é o Estado com o terceiro maior contingente
populacional indígena do Brasil.

por Daniel Sasaki / Abril e Maio de 2016
foto Acervo da Pesquisa



Não é de hoje que a educação brasileira está em crise. Além da falta de infraestrutura nas escolas públicas, muitos apontam a baixa qualidade no ensino como o principal vilão, problema que está diretamente ligado à formação e à eficiência do trabalho do professor. Se a formação do professor “da cidade” é problemática, como imaginar a situação da formação do professor “da floresta”?

Para responder a essa pergunta, a professora Maria Lúcia Martins Pedrosa Marra defendeu a tese intitulada Escola Itinerante: uma experiência de formação de professores Indígenas no Estado no Pará, Brasil, pelo Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGED) da Universidade Federal do Pará. De acordo com a pesquisadora, o objetivo de sua pesquisa era analisar a formação dos professores indígenas no Pará e, para isso, seu objeto de pesquisa foi o curso, em nível médio, de formação de professores índios do Pará conhecido como “Escola Itinerante”, ofertado pela Secretaria de Educação do Estado do Pará (Seduc).

Para a professora, era necessário estudar como essa formação se  realizava. “O meu interesse foi em função das demandas que existiam sobre a história desses indígenas que já eram professores nas escolas, mas eram professores leigos e não recebiam como os outros professores”, explica.
A professora diz que a investigação é fundamental ao percebermos a lentidão na implementação de políticas públicas direcionadas à população indígena. Esse problema toma dimensões preocupantes no Pará, Estado com o terceiro maior contingente populacional indígena do Brasil.

A política oferecida pela Seduc foi fruto de um forte movimento, principalmente dos índios Tembé, que reivindicaram melhorias na formação de seus professores. A formação deveria ocorrer no Instituto de Educação do Pará (IEP), porém não havia como deslocar os indígenas até Belém. Assim, a escola tornou-se efetivamente itinerante, com professores saindo daqui em direção aos polos, localizados próximo às aldeias.

Uma assembleia em que todos ouvem com respeito

Algo que chamou bastante atenção da pesquisadora foi a capacidade de politização e articulação dos indígenas. “Eu participava de algumas reuniões que não eram relacionadas à educação, nas quais eles discutiam assuntos importantes para a comunidade. Todos participavam, dos idosos às crianças, com profundo respeito. Todos tinham o direito de falar. Ficava nítido que eles brigam pelo que querem”, avalia Maria Lúcia Marra.

Alguns grupos indígenas não concordaram com a forma como  a Escola Itinerante estava sendo realizada e lutaram por um modelo de formação de professores dentro da sua aldeia, como foi o caso dos índios Mundurucu. “Eles não queriam participar da Escola Itinerante justamente pela demora da formação. Então foram ao Ministério Público e conseguiram criar outro modelo de formação na própria aldeia, oficializado por meio de protocolos do Ministério da Educação”, lembra a pesquisadora. De acordo com Maria Lúcia Marra, as demandas indígenas dentro do Ministério envolvem não apenas a educação mas também outras questões, como saúde, demarcação de terras e bilinguismo. 

A pesquisa realizada de 2011 a 2015 teve a preocupação de trazer à tona as problemáticas que envolvem as políticas públicas voltadas para os índios. “Há uma grande morosidade quando se trata de questões indígenas. Tudo é muito difícil e demorado. No Pará, existe apenas uma escola considerada escola indígena. Há muito para ser feito, muitas decisões para serem tomadas pelas lideranças políticas”, avalia Maria Lúcia.

Sobre os quatro anos de pesquisa, a professora relata a oportunidade que foi encontrar uma nova cultura e aprender com seus costumes. “É uma descoberta que faz a gente enriquecer e mudar a forma de pensar. Diminuímos os nossos preconceitos e percebemos que temos muito a aprender com os indígenas”, conclui.

comentários (1)
Parabéns!!
escrito por Marcus Souza, junho 08, 2016
Parabéns pela pesquisa Professora, só assim, oportunizando a todos poderemos ter uma evolução educacional no País

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