Jornal da Universidade Federal do Pará. Ano XXX Nº 130. Abril e Maio de 2016

Entrevista: Migração sob o olhar da Antropologia

Jane Felipe Beltrão

por Walter Pinto / Abril e Maio de 2016
foto Alexandre Moraes



A Europa vem sendo o destino do maior fluxo migratório já registrado na história do considerado Velho Mundo. Imigrantes desesperados do Oriente Médio e da África colocam pressão sem precedentes sobre os países da União Europeia. Mais de 350 mil deles estiveram nas fronteiras da UE entre janeiro e agosto de 2015, em comparação com 280.000 em 2014, segundo estimativa da Organização Internacional para as Migrações (OIM). Os principais motores da migração, segundo as informações da mídia, são os conflitos na Síria e no Afeganistão e a violência na Eritreia. Na ânsia de fugir da violência da guerra, mais de 2.600 migrantes afogaram-se nas águas do Mediterrâneo no ano passado, segundo a OIM. Para a antropóloga Jane Felipe Beltrão, professora da UFPA, vice-presidente da Associação Brasileira de Antropologia (ABA), a situação de guerra nos países africanos e asiáticos foi uma “criação” da Guerra Fria. Os imigrantes são “tomados como ‘bárbaros’ e poucos conseguem ver a imposição sobre esses povos. Assim, direitos humanos são esquecidos e “as situações de violação se multiplicam nos navios e nos abrigos nos quais pessoas são estupradas (...), passam fome, vivem situações de violenta humilhação e de atentado à dignidade humana”, diz a antropóloga.

O mundo assistiu, principalmente em 2015, à chegada de milhares de imigrantes do Oriente Médio e da África à Europa pelo Mediterrâneo. Os imigrantes têm enfrentado barreiras em países da Comunidade Europeia, principalmente nos que enfrentam crises econômicas, como Portugal, Espanha e Grécia. A questão econômica é, de fato, o que está por trás dessas barreiras?

Creio que, inicialmente, é preciso compreender que a economia é, necessariamente, uma construção cultural e, como tal, se diferencia de sociedade para sociedade, portanto as demandas econômico-culturais estão imbricadas. Os fatos que acontecem no Oriente Médio e nas proximidades possuem raízes profundas, afinal, a hegemonia política europeia e norte-americana – no século XX – sempre considerou povos e territórios além das franjas do Mediterrâneo de forma assimétrica, sob as botas de exércitos reais ou não. Portanto a crise existente hoje foi “criação” da Guerra Fria, que, por vezes, se torna quente. Por sua vez, Portugal, Espanha e Grécia fazem parte de uma União Europeia que não os “favorece”, pois as contribuições são diferenciadas e as imposições assimétricas se fazem sentir, dentro do artificialismo político criado pelos europeus.

Síria, Afeganistão, Iraque e Eritreia estão entre os países com maior fluxo de imigrantes à Europa.  Os imigrantes fazem uma travessia de grande risco. A mídia costuma apontar a situação de guerra nesses países para justificar a saída. É essa, de fato, a causa dessa corrente migratória?

Eu desloco o foco para o nível  político. Afinal, o Imperialismo europeu, ao final do século XIX, retalhou a África e os demais  territórios por interesses políticos, econômicos e a história de viés positivista, feita pelos colonizadores, nos ensinou a não ver resistência entre os povos colonizados. Qual de nós teve acesso à defesa da soberania feita pelos reinos africanos, por exemplo? Assim sendo, as liberdades democráticas não foram totalmente experimentadas pelos povos colonizados tampouco puderam adaptar os modelos “importados” de organização política e social. Dez ou 20 anos de “surtos” democráticos, sob vigilância de grandes potências, são, institucionalmente, nada diante da desorganização promovida nos espaços sujeitos ao Imperialismo. A nós, só aparece a face da intolerância religiosa e da jihad, que, ao longo dos últimos cem anos, se modificou de forma radical.

Na Europa, os imigrantes estão enfrentando dificuldades de adaptação. Além dos problemas econômicos, há os choques de cultura e até de violência. Há algum paralelo de embate cultural na história das correntes migratórias?

Penso que há paralelos, entretanto eles são pouco conhecidos. Sempre refiro, em sala de aula, que não se fala em Holocausto nas Américas, porque os povos originários – caso dos indígenas – e  os povos transplantados – caso dos africanos – não professavam o judaísmo nem habitavam o Velho Mundo.
A dominação política “obrigará” os povos deslocados, de forma compulsória, a “ se europeizarem”, tal qual os portugueses o fizeram com pessoas indígenas e africanas, produzindo “limpezas étnicas”, que se caracterizam pelo genocídio – morte aos deslocados – e etnocídio – adesão a padrões culturais homogeneizantes, de forma impositiva. Agora, africanos e asiáticos são tomados como “bárbaros”, os quais, é preciso combater, sob pena de sucumbir a sua suposta selvageria.

Todas as mazelas produzidas pelos colonizadores vão ser computadas na conta da suposta dinâmica populacional europeia. Poucos conseguem ver a imposição e, assim, os direitos humanos são esquecidos, as situações de violação se multiplicam nos navios, nos abrigos em que pessoas (mulheres e crianças, mas também homens e meninos) são estupradas, passam fome, vivem situações de humilhação e de atentado à dignidade humana.

Seria diferente se a imigração fosse dirigida aos países da América do Sul?

Não. Na verdade, custa-me acreditar que, depois de anos colonizados, não acolhemos as pessoas, compulsoriamente, deslocadas por catástrofes, sistemas políticos opressivos. Fico preocupada com a ocorrência, em diversas proporções: com os que vêm de fora da América (asiáticos vulnerabilizados, em diversos países); com os que vêm de dentro – entre países latino-americanos (haitianos e bolivianos no Brasil); e com os de dentro de um mesmo país (sem terra, indígenas e quilombolas). Nossas políticas de migração são restritivas e não protegem o cidadão, são tentáculos estatais. Mas o que esperar de sistemas democráticos pouco capazes de vencer as amarras impostas em anos de colonização?

O Brasil tem criado barreiras para receber imigrantes? Quem são os imigrantes que fazem do Brasil ponto de chegada?

Sim, tanto que, na Associação Brasileira de Antropologia (ABA), trabalhamos permanentemente em um Comitê Migrações e Deslocamentos, sob a coordenação de Bela Feldman-Bianco (Unicamp) e de Igor Machado (UFSCar), tendo como membros: Adriana Piscitelli (PAGU/Unicamp); Giralda Seyferth (Museu Nacional/UFRJ); Liliana Sanjurjo (UFSCAR/CEMI-Unicamp); Marcia Anita Sprandel (Senado Federal) e Taniele Rui (CEBRAP), especialistas que permanecem atentos às políticas e agem, nos limites de nossas possibilidades, como associação acadêmica. Ultimamente, temos haitianos, bolivianos, coreanos, entre outros, como migrantes no Brasil. Mas o número de sírios e libaneses parece ter aumentado, inclusive em Belém, onde, agora, as pessoas com vestes étnicas e véus aparecem no cotidiano da cidade e ainda despertam curiosidade.

Os imigrantes no Brasil possuem liberdade para professar seus cultos religiosos e sua cultura própria?

Teoricamente, sim, mas se pensarmos no quanto desrespeitamos o estado laico que as agências dos movimentos sociais permitiram criar... Entretanto é preciso lembrar o avanço de religiões de caráter evangélico, cujas práticas não são minimamente respeitosas. A intolerância e o desrespeito são denunciados dia a dia, assustando os praticantes de outras religiões, especialmente, os de matriz afro-brasileira.

Como a legislação trata a questão dos imigrantes no Brasil?

De forma draconiana, salvo no caso de refugiados, mesmo estes não têm proteção integral. Penso que, no Brasil, pelos relatos de africanos e latino-americanos – estudantes da UFPA, oriundos de convênios – os problemas que enfrentam não são diferentes dos que – como migrantes – passamos em países europeus e, no caso dos africanos, a discriminação afasta a possibilidade de agregação. Inclusive, dentro da UFPA, pouco se faz para combater o racismo institucional, que esmaga e apaga tudo que de correto podemos fazer.

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