Jornal da Universidade Federal do Pará. Ano XXX Nº 130. Abril e Maio de 2016

Tesouros da Biblioteca Central

Os Lusíadas está entre os tesouros encontrados na
Biblioteca Central.

por Sílvio Holanda / Abril e Maio de 2015
foto Alexandre Moraes


Em meio à intensa e crescente informatização das bibliotecas, surgiram novas formas  de interação, virtualmente mediada, entre leitores e livros. Esse processo, em escala mundial, permite a alguns sites oferecer, como o Archive, mais de quatro milhões de livros, artigos, textos de jornais, partituras, antes só acessíveis presencialmente. O impacto da informatização bibliográfica sobre o ensino e a pesquisa (vejam-se os bancos digitais de teses e dissertações e o portal de periódicos da CAPES) se fez sentir em uma proporção semelhante à invenção da imprensa com caracteres móveis. Mesmo material iconográfico e arquivístico e manuscritos, antes de acesso muito restrito, passaram a ser mais facilmente divulgados e lidos, sem as restrições pelas normas de conservação.

Apesar das mudanças trazidas pela introdução da informática na organização das bibliotecas, estas ainda se mantêm como espaço promotor da informação e se individualizam em sua organização histórica e processo de constituição, muitas vezes dependentes, no caso das universidades, de compras institucionais e de doações de particulares, como é o caso justamente da Biblioteca Central da UFPA.

Não pretendo contar a história da BC e sua constituição progressiva ao longo do tempo desde a criação da UFPA. Desejo apenas indicar aos leitores alguns tesouros, não facilmente localizáveis apenas com o recurso ao eficiente catálogo digital. Esclareço que, por questões de interesse pessoal e formação, darei destaque a obras pertencentes ao vasto campo das Humanidades e das Letras.

Embora frequente a BC desde 1985, ainda, vez por outra, me surpreendo com um livro não visto antes; naturalmente não me refiro às aquisições recentes. Os livros que mais me despertam a atenção são aqueles que têm uma história anterior à sua chegada à BC, livros intensamente lidos por seus antigos possuidores, livros que, muitas vezes, cruzaram oceanos e um sem-número de cidades. São assim, os livros que pertenceram a ex-professores do Instituto de Letras e Comunicação (Rômulo Souza e Albeniza Chaves), à escritora Eneida de Moraes e ao diplomata Jaime Cardoso. Em sua maioria, são livros em cujas páginas há marcas visíveis de leitura, traços, breves notas marginais que apontam para uma citação futura ou utilização em sala de aula. Apenas acompanhar, página a página, esse lento movimento da mão e dos olhos sobre a superfície do papel já é, por si só, uma experiência única, na medida em que tais gestos singularizam uma obra, independentemente de seu registro bibliográfico.

Acervos particulares trazem marcas dos antigos donos

Embora os livros da professora Albeniza Chaves não sejam propriamente “livros raros”, revestem-se das discretas marcas de sua antiga possuidora, ex-professora do Curso de Letras e arguta intérprete da obra de Mário Faustino. Trata-se de livros em português e francês, como as obras de Tzvetan Todorov, Critique de la critique (1984) e Introduction à la littérature fantastique (1970) e as de Jakobson, Questions de poétique (1973). Além de sua importância intrínseca, tais obras e muitas outras não citadas aqui indicam uma época na formação da crítica universitária, profundamente marcada pelas concepções e metodologias de perfil estruturalista. Justamente, essas concepções teóricas se divulgavam nas salas de aula da UFPA nos idos da década de 1970. Do conjunto doado, saliente-se um sem número de textos didáticos sobre a Língua e a Literatura Latinas doadas pela grande mestra (por exemplo, a Gramática Latina de Johan Nicolai Madvig, publicada em 1942, e muitos volumes editados pela prestigiosa Hachette). Imaginam-se as dificuldades na importação dessas obras nas décadas de 1950 e 1960.

No que se refere ao Professor Rômulo Souza, titular de Latim, a BC dispõe de inúmeras a) gramáticas (Grammaire latine complète (1947), de Riemann), b) histórias da literatura latina (Histoire illustrée de la littérature latine (1932); Histoire de la littérature latine (1901), de Lamarre; Littérature latine (1960), de Bayet; Précis d’histoire de la littérature latine (1945), de Pernot & Chappon); c) autores (várias edições da Hachette e da Belles-Lettres (Virgílio, Cícero, Catulo, Horácio, Marcial, entre outros); d) manuais para o ensino de Latim nos cursos superiores de Letras (Metodologia do latim (1962), de Nóbrega, e Introdução à didática do Latim (1959)), de Ernesto Faria Junior. Tais obras didáticas, na sua maioria importadas da França, marcaram toda uma geração formada em Línguas Estrangeiras Modernas (Francês e Inglês) e em Línguas Clássicas, na época em que havia ainda a Licenciatura em Letras Clássicas.

O espólio de Eneida de Moraes (ou o que sobrou dele) hoje constitui um fundo próprio da BC e reúne dezenas de obras publicadas entre as décadas de 1940 e 1970, muitas delas autografadas. Destaco a dedicatória de Drummond em um exemplar das Folhas de Relva em inglês: “A Eneida, pela primavera que ainda chegou. 1945.” (WHITMAN, Walt. Leaves of grass. New York: Aventine, 1931). Como jornalista, Eneida de Moraes acompanhou de perto, no Rio de Janeiro, a produção cultural brasileira a partir da década de 1940, tendo registrado nomes importantes do cenário literário de então. Essa militância jornalística se evidencia nas dezenas de livros que compõem seu acervo, muitos deles com dedicatórias afetuosas dos autores à escritora paraense. Hoje, esse material bibliográfico se encontra reunido na Sala que leva o nome da autora, podendo o público em geral ter acesso a todo o seu conteúdo.

O conjunto dos livros (em português e francês) doados pelo diplomata Jaime Cardoso enlouqueceria qualquer bibliófilo, pela riqueza e variedade dos títulos, pela qualidade das encadernações e pelo fato de a BC ser, às vezes, a única possuidora de um título ausente na maioria das bibliotecas universitárias brasileiras. Tais livros eram pessoalmente escolhidos pelo diplomata em suas viagens e permanência em diversos países, como a França e a Itália. Saliento, diante de tal espólio, apenas duas obras, exemplares singulares da tipografia europeia, com capa dura em couro e com letras douradas: 1) a monumental edição da balzaquiana completa de 1912 em 37 volumes: BALZAC, Honoré de. La Comédie humaine. Paris: Louis Conard, 1912. Trata-se de uma edição histórica da Comédia humana, hoje avaliada em mais de cinco mil euros (www.abebooks.fr), e 2) as obras poéticas de Eugénio de Castro, luxuosamente impressa e encadernada: CASTRO, Eugênio de. Obras poéticas. Lisboa: Lumen, 1927-1940. 8 v.

Lista de tesouros bibliográficos

Gostaria de listar, um pouco arbitrariamente, alguns dos tesouros bibliográficos, entre tantos títulos. Ressalte-se que esse rol é apenas indicativo e não diz respeito necessariamente a obras raras:

1) Fac-símile de texto quinhentista de Anchieta (1595): ANCHIETA, José de. Arte de gramática da língua mais usada na costa do Brasil. Ed. fac-similar de 1595. São Paulo: Anchieta, 1946. 59 f.;
2) O lado poético do sociólogo Gilberto Freyre: FREYRE, Gilberto. Talvez poesia. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1962. 97 p.;
3) Primeira edição de Recordações do escrivão Isaías Caminha (1909), de Lima Barreto, romance de estreia deste escritor: BARRETO, Lima. Recordações do escrivão Isaías Caminha. Lisboa: Clássica, 1909. 316 p.;
4) A infância Taulipang registrada pelo trabalho de Koch-Grünberg:: KOCH-GRÜNBERG, Theodor [1872-1924]. Vom Roroima zum Orinoco: Ergebnisse einer Reise in Nordbrasilien und Venezuela in den Jahren 1911-1913 [De Roraima ao Orinoco: resultados de uma viagem ao Norte do Brasil e à Venezuela nos anos de 1911-1913]. Berlin: Dietrich Reimer, 1917-1928. v. 1;
5) As belas vistas de Belém na primeira década de 1900: WALLE, Paul. Au pays de l’or noir [Na terra do ouro negro]: Pará, Amazonas, Matto Grosso. Paris: E. Guilmoto, 1910. 244 p;
6) Edição do tricentenário de publicação de Os Lusíadas: CAMÕES, Luís de. Os Lusíadas. Porto: Tipografia Giesecke & Devrient, 1880. 375 p.
7) Folha de rosto de rara edição das Cenas da vida amazônica, de 1886: VERÍSSIMO, José. Scenas da vida amazonica: com um estudo sobre as populações indigenas e mestiças da Amazonia. Lisboa: Tavares Cardoso & Irmão, 1886. 267 p.;
8) Importante texto de Euclides da Cunha relativo à Guerra de Canudos: CUNHA, Euclides da. Canudos (diário de uma viagem). Rio de Janeiro: J. Olympio, 1939. 186 p.;
9) A primeira edição de Os sertões, do mesmo autor: CUNHA, Euclides da. Os sertões; campanha de Canudos. Rio de Janeiro: Laemmert, 1902. 632 p.;
10) O marco inaugural do Simbolismo no Brasil em sua raríssima primeira edição: SOUSA, Cruz e. Missal. Rio de Janeiro: Magalhães, 1893. 230 p.

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