Jornal da Universidade Federal do Pará. Ano XXX Nº 130. Abril e Maio de 2016

Entrevista: “Não tenho preconceitos. Todas as formas de leituras são válidas”

Lilia Schwarcz

por Walter Pinto / Abril e Maio de 2015
foto Alexandre Moraes


Professora titular no Departamento de Antropologia da USP e Global Scholar na Universidade de Princeton (EUA), a historiadora e antropóloga Lilia Moritz Schwarcz esteve na UFPA participando do Seminário Itinerante “Agenda brasileira: temas fundamentais para a sociedade”, organizado pela professora Edna Castro, coordenadora do NAEA. Na ocasião lançou, juntamente com o historiador André Botelho, da UFRJ, a Coleção Agenda Brasileira. Autora de vários livros, a historiadora conquistou três prêmios Jabuti, o de 1999, com As barbas do imperador - D. Pedro II; o de 2009, com O Sol do Brasil; e o de 2010, com Um enigma chamado Brasil. Em Belém, ela falou sobre a sua trajetória, as suas experiências com história em quadrinhos e a produção para o ensino médio.

Formação

Sou historiadora e antropóloga. Esta condição me leva a dizer que sou uma terceira margem. Os historiadores falam: “não liga, não, ela é antropóloga”. Já os antropólogos dizem: “não liga, não, ela é historiadora”.  Por um momento, ministrei aulas junto com um antropólogo e ele dizia: “A diferença é que ela coloca logo os gregos no meio”. Eu tento trabalhar nessas “fronteiras”, que são boas para pensar. Acho interessante tentar tirar o melhor de ambas, ou seja, o rigor do historiador no uso das fontes e o aporte teórico da Antropologia, com destaque à eficácia simbólica e à questão da igualdade.

Amazônia

A Amazônia sempre esteve na nossa Agenda, primeiro, como um imenso desconhecido, como diz o Roberto DaMatta em O que faz o brasil, Brasil?. Se pensarmos na importância da Amazônia, região que se conformou como um Estado separado, de negociação muito mais direta com a metrópole portuguesa, e mesmo com a Europa, do que com o resto daquilo que se chamava Brasil, veremos que a Amazônia sempre fez parte dos programas estratégicos do nosso país. Não foi por acaso que o Marquês de Pombal dedicava à Amazônia um “cuidado” muito grande, no sentido de manter um controle absoluto sobre aquilo que eles chamavam de especiarias.

No momento atual, nós, antropólogos, sabemos da importância das populações e do imenso patrimônio material e imaterial que temos aqui, na região. A Amazônia cumpre um papel estratégico, sempre esteve nas questões cruciais do País, mas a partir de ângulos diferentes.

Agenda Brasileira

Vimos a Belém lançar uma coleção organizada por mim e pelo historiador André Botelho, voltada, principalmente, para o ensino médio. Em 2001, fizemos uma primeira experiência editorial chamada Agenda Brasileira, que resultou num livro muito bem recebido. Veio em sequência à outra publicação. Ambas, de alguma maneira, decorrentes do trabalho Pensamento social no Brasil, realizado por um grupo de pesquisadores experientes, que se reúne com frequência. A coleção é voltada, principalmente, para o ensino médio a partir da alegada ausência de diálogo deste ensino com a universidade. É um enorme desafio escrever para um público amplo e diversificado, formado por universitários, estudantes de ensino médio e público em geral, sem simplificar. A ideia da coleção foi discutir os grandes temas da nossa agenda, as questões da cidadania, dos direitos, dos limites, do direito à diferença. A coleção, de alguma maneira, envolve essas questões.  Quatro livros já foram publicados e há outros quatro em elaboração. Mas a coleção não está fechada, afinal, como dizemos, “cidadania é tema de agenda aberta”.

Ensino médio

Trabalhar com o ensino médio tem sido uma preocupação constante. Ainda no mestrado, publiquei meu primeiro livro em quadrinhos, o Da Colônia ao Império: um Brasil para inglês ver, uma parceria com o cartunista Miguel Paiva. Dois anos depois, escrevi Cai o Império! República volver, ilustrado pelo Angeli. Foi uma experiência muito divertida, de muito sucesso na época, editado pela Brasiliense. Tive que vencer a resistência do meu orientador. Ele não entendia muito bem para que fazer um livro de quadrinhos.

Minha terceira experiência com história em quadrinhos foi o Dom João Carioca, escrito por ocasião do centenário da vinda da Corte. Foi esta a minha primeira publicação com o Spacca. Mais recentemente, publiquei As barbas do Imperador, também com ele, a partir da minha tese.

Também fiz outro livro em quadrinhos que se chamou O Império em procissão. Conta o momento da coroação de Dom Pedro II, a partir dos detalhes: se chovia ou fazia sol, como as pessoas se vestiam, qual o cardápio oferecido, o que elas viram e o que o rei trajava. Pretendi, a partir desses pequenos eventos, contar uma história mais ampla. Mesmo na Companhia das Letras, onde atuo como editora de não ficção, e, para a área infantil, desenvolvo uma proposta que busca fazer a ponte entre a academia e o público mais amplo.

História e HQ

Sempre fui uma aficionada por quadrinhos. Meu pai era francês e me alfabetizei lendo revistas como Tim Tim e Asterix, em francês. Não tenho preconceito com as formas de leitura. Penso que todas são importantes, desde que induzam o leitor à viagem que os livros nos oferecem. Eu fui socializada nesse mundo de livros desde pequena e acho que toda leitura é válida e importante. Lamento que haja muito preconceito com a ideia de adaptação e ainda mais em relação aos quadrinhos. Mas tive a sorte de trabalhar com cartunistas muito sérios, verdadeiros pesquisadores, como o Spacca. Ele não faz um desenho sem pesquisar a iconografia da época, sem que vá a um arquivo e pesquise junto comigo.

Movimentos sociais

O Brasil entrou na agenda dos direitos civis em 1970, época do surgimento de uma série de movimentos sociais reivindicatórios, entre os quais, o Movimento Negro e o Movimento Feminista. Se pensarmos em termos de temporalidade, pode até parecer uma agenda tardia, talvez por causa da Ditadura. A grande batalha do direito da cidadania clássica era o direito à igualdade, sobretudo na França. No direito à igualdade, você abandona a ideia de origem e passa a pensar “todo cidadão é livre”. Essa é a cartilha do direito fundamental. Já a igualdade na diferença, ou seja, a luta por ser negro, por ser gay, enfim, essa ideia do direito à diferença é uma questão que entrou forte no Brasil, na década de 1970.

E o País tem atuado muito fortemente neste sentido, se pensarmos que a nossa parada gay é a maior do mundo e que temos leis como a Maria da Penha... Eu penso que o Brasil vem trabalhando por meio de leis que proíbem discriminações. O Brasil entrou vigorosamente nessa discussão, a despeito de sabermos que o País continua sendo campeão da desigualdade social, marcado por uma perversa exclusão social e por políticas que refletem preconceito social.

Imagens e história

Por que nós, cientistas sociais, somos, em geral, tão metódicos em relação ao uso de documentos escritos e tão pouco cuidadosos com o uso de imagens? Quando utilizamos um documento escrito, verificamos informações, como origem, local, arquivo, dimensão, data, autor e recepção.  Mas quando se trata de imagens, geralmente, elas são meras ilustrações, não as vemos como documentos que interpelam as interpretações.

Um exemplo é o uso da tela A primeira missa, de Victor Meireles, em análise sobre o Período Colonial. Na minha opinião, essa tela só cabe nas análises sobre o Segundo Reinado, porque foi uma tela comissionada pelo imperador. Tinha um objetivo ideológico de mostrar a unificação de todos os grupos, à época do descobrimento. Surge junto com o esforço do Estado de fazer da Carta do Caminha o nosso primeiro documento de identidade. Quem for estudar a tela do Meireles terá que descobrir quem é o autor, por que foi financiado, quem financiou e para onde foi a tela. Então, essa imagem não pode ser apenas uma ilustração, tem que ter o mesmo tratamento dado aos documentos da Corte.

Em geral, as imagens são usadas para confirmar argumentos previamente formulados ou são publicadas como anexos. Quando usadas em sala de aula, muitas vezes, surgem sem autoria. Quando trazem a autoria, nada informam sobre o acervo. Quando informam o acervo, não trazem a data. Quando trazem a data, esquece-se da dimensão. Ao historiador, cabe enfrentar as especificidades dessa linguagem.

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