Jornal da Universidade Federal do Pará. Ano XXX Nº 130. Abril e Maio de 2016

Poucas espécies e grande número

Durante o monitoramento, pesquisadores utilizaram 
metodologias diferentes de  captura e identificação. 

por Marcus Passos / Abril e Maio de 2015
foto Acervo do Pesquisador


Com o desenvolvimento das cidades ocasionado, principalmente, pelos fenômenos da industrialização e urbanização, as áreas de floresta com alta densidade de árvores tornaram-se escassas no perímetro urbano.  Um desses caros espaços está localizado na área operacional da Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero) de Belém. Uma região que apresenta 160 hectares de mata.

Em 2013, a Infraero - responsável pela administração dos principais aeroportos do Brasil - procurou a Universidade Federal do Pará (UFPA), especificamente, o Instituto de Ciências Biológicas, e firmou parceria para realizar o levantamento dos animais silvestres do fragmento florestal localizado dentro da área de operação do Aeroporto Internacional de Belém. O resultado foi a elaboração do Projeto de Pesquisa “Monitoramento da fauna de mamíferos terrestres na área operacional da Infraero em Belém”.

Coordenado pela professora Ana Cristina Mendes de Oliveira e com a participação de duas alunas de Iniciação Científica da UFPA, o trabalho tem como objetivo conhecer a fauna de mamíferos existentes no setor operacional da Infraero. Futuramente, essas informações poderão ser integradas a objetivos maiores, como o mapeamento da fauna nos fragmentos florestais urbanos da Região Metropolitana de Belém.

Para Ana Cristina Oliveira, “o levantamento da fauna de um único fragmento não responde muita coisa, mas quando você começa a entender quantas e quais as espécies de mamíferos ainda estão sobrevivendo nos diversos fragmentos, é possível começar a pensar em estratégias mais efetivas para a conservação desses fragmentos”.

A partir daí, é possível saber onde essa fauna está concentrada, quais espécies têm sido mais afetadas, quais fragmentos precisam ser recuperados, quais ainda sustentam a fauna e podem servir de receptores para animais apreendidos pelo Ibama. A pesquisadora esclarece, ainda, que os fragmentos florestais urbanos não são meramente cênicos, eles exercem função importante na manutenção do microclima da cidade, na proteção e manutenção dos mananciais hídricos, além de amenizar a poluição atmosférica. A fauna silvestre é um grande indicativo da saúde e integridade desses fragmentos florestais, daí a importância de monitorá-la.

Macacos, tatus e cutias estão entre os animais identificados

Durante o período de monitoramento, a pesquisa aplicou uma metodologia específica para cada grupo de mamífero. Em termos metodológicos, os pequenos mamíferos, que incluem os pequenos roedores e marsupiais, estão separados dos médios e grandes mamíferos, que incluem animais como: cutias, pacas, veados, porcos, primatas, antas, felinos e canídeos. Isso ocorre, porque cada fauna necessita de técnicas diferenciadas para serem acessadas.

No caso específico do fragmento da Infraero, a pesquisa realizou 102 registros de mamíferos de médio e grande porte, de seis espécies diferentes. O método mais utilizado para registrar este grupo foi o de armadilhamento fotográfico, que consiste em uma máquina fotográfica acoplada a uma caixa plástica de proteção, que é fixada nas árvores, a uma altura de 40 cm. Essa armadilha possui um sensor de movimento e calor, que dispara três fotos contínuas no exato momento em que o animal passa em sua frente. Entre os bichos identificados, estão preguiças, macacos, tamanduás, tatus, cutias e cachorro do mato.

Além das armadilhas fotográficas, foram usadas outras metodologias para inspecionar os mamíferos médios e grandes, como o censo por transecção linear, que consiste em seguir em trilhas, em silêncio, bem cedo, pela mata. E a busca por vestígios, pois os mamíferos deixam muitas marcas, como pegadas, fezes ou vocalização por onde andam. “Durante todo esse trabalho, fomos escoltados por seguranças da Infraero, a qual também nos deu todo apoio logístico para desenvolver a pesquisa”, explica a professora Ana Cristina Oliveira.

Em relação aos pequenos mamíferos, a pesquisa registrou 80 animais, de cinco espécies diferentes, segundo as bolsistas do projeto, Jaqueline Almeida e Letícia Braga da Silva. Entre os métodos de coleta utilizados, estão as armadilhas de contenção de animais vivos, que são de dois tipos, a Tomahawk (gaiola) e a sherman (chapas de alumínio).

As armadilhas Tomahawk são confeccionadas em grades de arame. Enquanto  as armadilhas sherman são feitas em chapas de alumínio de vários tamanhos, dobráveis ou não. “Ela é pequena, toda fechada e tem um sistema de pedal/disparo, que é acionado quando o animal entra no local e pisa no pedal, fazendo a porta se fechar. Nessas ferramentas de contenção de animais vivos, nós utilizamos iscas feitas com pasta de amendoim, fubá, sardinha ou frutas”, explica Jaqueline Almeida.

Espécies sobrevivem com baixa demanda ecológica

Outro método de captura utilizado foi o da armadilha de interceptação e queda (pitfalls). Ela consiste na instalação de quatro baldes de 60 litros enterrados até a borda, a uma distância de 15 metros um do outro, interligados por uma cerca guia de plástico sustentada por estacas de madeiras.  O animal é surpreendido pela cerca guia no ambiente, ao tentar escapar, ele segue até cair dentro de um dos baldes.

Os pequenos mamíferos são coletados pela equipe por causa da sua difícil identificação. Alguns são sacrificados e colocados em uma coleção de referência, que passará por medições técnicas. Em relação aos médios e grandes mamíferos, não há coleta, pois são mais fáceis de visualizar e identificar em campo.

As principais conclusões do estudo dizem respeito à baixa quantidade de espécies encontradas no local. “Nós encontramos seis espécies de médios e grandes mamíferos e cinco, de pequenos mamíferos. Esse número é considerado muito baixo. São poucas espécies, mas em altíssima abundância. São espécies com baixas demandas ecológicas, que ainda conseguem tolerar ambientes degradados com alto grau de perturbação. Como os predadores do topo da cadeia trófica não estão mais presentes nestes fragmentos, estes animais que persistem acabam aumentando sua abundância”, explica Ana Cristina Oliveira.

Os fragmentos florestais da Região Metropolitana de Belém encontram-se em diferentes níveis de degradação e apresentam diferentes capacidades de suporte para a fauna, incluindo recursos alimentares e abrigo. Os mamíferos exercem papéis importantes na manutenção da floresta, como dispersão de sementes, predação, herbivoria e ciclagem de nutrientes. “O desaparecimento dos mamíferos, bem como do restante da fauna silvestre nestes fragmentos urbanos, certamente, favorecerá o colapso destas áreas de florestas nativas, em médio e longo prazo”, prevê a professora Ana Cristina.

O próximo passo é reunir as informações dos vários fragmentos urbanos que já foram monitorados ao longo dos anos e verificar as relações entre o tamanho do fragmento, a diversidade existente e o nível de degradação do local. Em seguida, publicar um artigo científico sobre essas informações, para que elas possam ser usadas pela sociedade e pelos órgãos de Gestão Ambiental.

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