Jornal da Universidade Federal do Pará. Ano XXX Nº 130. Abril e Maio de 2016

Comunidades têm dificuldades de acesso à saúde

Coleta de dados foi realizada em três comunidades
Quilombolas paraenses

por Vitor Barros / Abril e Maio de 2015
foto Acervo do Pesquisador


Se o menino está com quebranto, leva na benzedeira. Essa e outras práticas são comuns em populações que se fundamentam em religiões de matriz africana, como as comunidades de remanescentes de quilombo.  A maioria das vezes, esse conhecimento é alvo de preconceito e racismo nas unidades de saúde que atendem essa parcela da população. Mas essa é só uma das dificuldades vividas pelos quilombolas.

Em geral, as populações quilombolas estão entre os grupos em situação de maior vulne­rabilidade, em relação aos serviços de saúde, no Brasil. A dissertação de mestrado “Acesso e acessibilidade aos serviços de saúde em três quilombos na Amazônia paraense: um olhar antropológico”, da pesquisadora Inara Cavalcante constatou a dificuldade de três comunidades quilombolas, no Pará, em terem acesso à assistência à saúde. O trabalho foi orientado pelo professor da Universidade Federal do Pará (UFPA) Hilton Silva e desenvolvido no Programa de Pós-Graduação em Saúde, Sociedade e Endemias na Amazônia (UFPA/UFAM/Fiocruz).

A situação precária da saúde dos quilombolas é resultado de um conjunto de fatores, segundo aponta o estudo. Entre eles, a distân­cia dos centros urbanos, a falta de servi­ços de transporte adequados, os elevados custos fi­nanceiros que envolvem os tratamentos de saúde, o desconhecimento e o distanciamento da cultura afro­descendente por parte dos gestores e profissionais de saúde que os atendem e, por fim, a baixa funcionalidade dos serviços de saúde ofertados.

Quatro dimensões – A dissertação é um estudo qualitativo descritivo sobre o acesso aos serviços de saúde a partir de quatro dimensões: geográfica, funcional, cultural e econômica. Com o objetivo de conhecer cada processo que envolve as dificuldades do acesso à saúde, a análise foi feita a partir de entrevistas com moradores, gestores e profissionais da saúde. Outra parte da coleta de informações se deu a partir da observação da cultura das comunidades, cruzando com dados obtidos dos relatórios do Ministério da Saúde.

A pesquisa ainda procurou identificar os modelos de planejamento adotado pelas gestões das Secretarias de Saúde dos municípios e como eles implicam diretamente na problemática. As comunidades estudadas foram África/Laranji­tuba, em Abaetetuba; Santo Antonio/ Foz do Cravo, em Concórdia do Pará; e Mangueiras, em Salvaterra, na Ilha do Marajó.

Segundo Inara Cavalcante, os gestores não conhecem ou não respeitam a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da População Negra. “Alguns acham que não precisa haver uma política dessas, pois acreditam que é um privilégio tratar a população negra de maneira diferente. Isso demonstra a não compreensão quanto à concepção de equidade. Essa política deve ser respeitada, pois ela existe a partir das necessidades, que são diferentes das dos demais grupos”, afirma. Ainda de acordo com a pesquisadora, não existe a preocupação de implantação desta política nos municípios que priorizam modelos de gestão baseados em questões econômicas.

Imersão nos costumes foi essencial para o desenvolvimento do estudo

Inara Cavalcante é enfermeira e, desde a graduação, atua na área de saúde coletiva. No Trabalho de Conclusão de Curso estudou práticas coletivas de saúde que são desenvolvidas dentro de assentamentos de comunidades rurais. “Naquele momento, investiguei o que os assentados faziam dentro desses locais como práticas de saúde. Como as pessoas tratavam ferimentos após um conflito ou, em caso de doença, como procediam”, relembra.

No mestrado, a sua experiência em comunidades rurais veio a calhar quando foi convidada para participar de um projeto que desenvolve estudos dentro da Linha de Pesquisa Socioecologia da Saúde e da Doença. “No projeto, eu me envolvi com a vertente que estuda as políticas publicas e os quilombolas. Em um primeiro momento, estudei os aspectos cultural e social do negro no Brasil, desde a escravidão até a atualidade”.

As primeiras visitas na comunidade foram feitas com a equipe do projeto, com a qual a pesquisadora desenvolvia outras atividades, o que limitava uma observação mais profunda, “senti a necessidade de voltar sozinha para me aproximar mais da comunidade e estabelecer um vínculo com eles”. Foram dois anos de pesquisa e Inara passava de 20 a 30 dias junto da população. “Eu acompanhei todas as dificuldades que a comunidade vivenciava no seu dia a dia. Mantive contato com a liderança local, geralmente um agente comunitário de saúde ou de um técnico de enfermagem, alguém que era referência na área de saúde nas comunidades”, revela Inara Cavalcante.

Essa imersão foi importante para descrever o universo que a pesquisadora se propunha estudar. A ideia de que as comunidades de remanescentes de quilombos são isoladas e que são compostas, cem por cento, de pessoas negras só está no imaginário das pessoas. “Existe todo o processo histórico de convivências e de relações com outras culturas que deram a configuração do quadro atual das comunidades. Nelas, há pessoas brancas, negras e com traços indígenas. É claro que, como estão localizadas em municípios pequenos, há problemas de chegar a essas comunidades pela distância, mas o isolamento é um mito. Essas comunidades têm acesso a antenas parabólicas e serviço de telefonia móvel”, esclarece.

Choque cultural entre profissionais de saúde e pacientes

Não só a questão geográfica e a limitação econômico-financeira são grandes entraves para o acesso à saúde por parte dos quilombolas mas também as questões culturais interferem. “Quando uma pessoa tem uma religiosidade de matriz africana, ela realiza um tratamento junto ao seu pai ou a sua mãe de santo de forma paralela. É forte a utilização de práticas tradicionais, como banhos, rezas e ervas”, explica a pesquisadora.

A pesquisa constatou que os médicos e enfermeiros conhecem a legislação do Sistema Único de Saúde (SUS) e reconhecem as praticas dos remanescentes de quilombos. O grande problema é que eles não utilizam os meios tradicionais como estratégia de cuidado. Pelo contrario, procuram distanciar-se. “Esse distanciamento cultural não permite que se atinjam os objetivos principais do SUS: oferecer serviço de saúde, restabelecer o estado do saudável do paciente e fortalecer o individuo como cidadão participante”, avalia. Devido a essa questão, os profissionais reclamam que os usuários não conseguem fazer um tratamento até o final.

“Entre o saber que está dentro da comunidade, que o quilombola acredita ser eficiente, e o medicamento caro, ele prefere seu conhecimento tradicional. Diante disso, é fundamental o planejamen­to de políticas públicas de saúde de acesso e acessibilidade a partir de uma lógica participativa e promotora da equidade em saúde, compatíveis com a dinâmica geográfica e sociocultural da Amazônia Brasileira”, conclui Inara Cavalcante.


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