Jornal da Universidade Federal do Pará. Ano XXX Nº 130. Abril e Maio de 2016

Opinião: Um jornalismo recente, que atingiu a maioridade

Jimena Felipe Beltrão

por Jimena Felipe Beltrão* / Abril e Maio de 2015
foto Alexandre Moraes


O Beira do Rio faz 30 anos. A Ciência e o Jornalismo comemoram. Divulgação de Ciência na história recente da Amazônia tem nomes bem definidos e é fruto de perspectivas e lideranças surgidas na primeira metade dos anos 80 no cenário da Ciência e da Tecnologia da região, que entenderam e assumiram o compromisso com um exercício contínuo e sistemático de tornar pública a Ciência. Passadas três décadas, é preciso vislumbrar não só a consolidação dos meios, mas permitir o estabelecimento de veículos inovadores para o seu tempo.

Mais do que falar sobre a experiência de divulgação da ciência na Amazônia, na Amazônia Brasileira, na Panamazônia, falar do lugar onde estamos, seja mais adequado.  Para mim, são três os exemplos mais importantes, emblemáticos e inspiradores da prática de tornar pública a ciência na região.

O Jornal do Trópico Úmido, Embrapa, então Centro de Pesquisas do Trópico Úmido (CPATU/Embrapa); o jornal Destaque Amazônia, publicado pelo Museu Goeldi; e o Beira do Rio, que tem, em comum, ao longo de sua história, alguns momentos de interrupção que padecem de justificativa e que nos deixam lacunas profundas nessa trajetória. Pioneiros na proposta de divulgar ciência na Amazônia e a partir das instituições de pesquisa mais importantes e uma da mais antigas do Brasil e a mais antiga do norte do país, que é o Museu Paraense Emilio Goeldi, esses títulos foram responsáveis pelo que, hoje, ainda se faz na região no que respeita o divulgar de Ciência.

Falo aqui do que conheci de perto e de veículos partícipe que sou das trajetórias de dois dos veículos de referência e âncoras da divulgação da Ciência na Amazônia. Estagiária em ambos e, anos depois, editora do Destaque Amazônia até março de 2014. Aprendi o ofício pelas mãos de jornalistas experientes, como Rosa Leal, no Goeldi e na UFPA, bem como do veterano da Assessoria de Comunicação da UFPA, Walter Pinto.

Inspirado pela tradição do Destaque e com os profissionais graduados que atuavam no Museu Goeldi, no ano de 1985, o Beira passa a ser publicado com uma proposta semelhante e ao mesmo tempo diversa, posto que, em formato distinto, com periodicidade e abrangência maior que a do Destaque Amazônia, fato esse compreensível pelo contexto em que se insere, o do caráter de uma Universidade. Ainda na Universidade, vale a menção à outra iniciativa dedicada à divulgação de Ciência, também inspirada no libelo do Destaque Amazônia, que é o programa de televisão Academia Amazônia, proposta de uma revista televisiva de cobertura das pesquisas desenvolvidas nesta universidade.

A partir das experiências do Pará, identificamos não só as publicações, mas uma tradição de formar jornalistas, profissionais dedicados à cobertura de ciência na região. Não temos uma escola, não temos uma vertente dedicada ao tema nos cursos de graduação, mas temos iniciativas de prática e de pesquisa, que vão aos poucos se expandindo. Assim ficam os registros e os profissionais com nome e sobrenome como Raimundo José Pinto, Ruth Rendeiro para aquinhoar os pioneiros, responsáveis junto aos demais por transformar os códigos específicos da Ciência. Árdua tarefa, muitas vezes, incompreendida por pesquisadores preocupados em não se deparar com suas falas, às vezes, alteradas no processo de comunicação.

Ainda levaremos muitas outras décadas não só para cobrir Ciência na intensidade que ela merece e que a sociedade necessita, mas também de sermos capazes de abrir mais canais, sensibilizar os meios de comunicação para uma cobertura dedicada dessas temáticas. Não podemos esquecer os avanços, o ganho de espaço em momentos históricos cruciais e também de uma cobertura sistemática que se prende às questões do desenvolvimento, do desmatamento, das mudanças climáticas, para falar apenas de algumas, que tanto interessam e mobilizam a sociedade da atualidade. Gostaria muito de ver a área das Ciências Humanas devidamente atendida em suas investigações nessa cobertura, coisa que esses dois veículos inspiradores aos quais fiz referência fazem jus.

Vida longa aos profissionais, aos divulgadores de ciência em geral, são as pessoas, nos seus talentos e competências, que, por fim, fazem a informação circular e que os veículos tenham a continuidade que tanto merecem. É o caráter político do fazer ciência que empresta à sociedade sua capacidade de definir o futuro e de ter autonomia e que pode garantir voz em uma sociedade que, muitas das vezes, perde a sua face democrática onde o Conhecimento, a Ciência da Academia e da Tradição popular tem papéis inquestionáveis.

O conteúdo, a informação credenciada, a fonte de respeito e um texto de qualidade são permanentes numa equação que se resolve à base de dedicação, estudo, reflexão, competência e trabalho.  A dedicação, o estudo, a competência e o trabalho só são alcançados através de uma formação continuada; da possibilidade de refletir sobre o que fazemos e de uma sistemática produção de conteúdos reveladores do que a Ciência é capaz.

Simples assim, complicado assim, complexo assim como só a vida pode ser e que sempre encontra possibilidades de aperfeiçoamento. Defendo a estruturação de uma Agência de Notícias que dê máxima visibilidade à produção jornalística sobre Ciência, Tecnologia e Inovação da Amazônia Oriental. Com caráter supra institucional dedicada à contínua abertura de espaços e canais de veiculação de conteúdos sobre Ciência, essa instância é um desafio e uma meta a serem alcançados.

Defendo ainda o estabelecimento de um programa de formação de recursos humanos voltado para a Comunicação de Ciência como suporte à formação continuada dos comunicadores na busca de um equilíbrio entre o profissional e acadêmico a partir de mecanismos existentes de educação continuada com ênfase na produção de estudos, monografias, trabalhos de conclusão de curso, que analisem os temas relativos à comunicação de Ciência . Da iniciação científica à pós-graduação.


*Jimena Felipe Beltrão - Jornalista, Ph.D em Ciências Sociais pela University of Leicester. Atualmente, é analista em Ciência e Tecnologia do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG).

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