Jornal da Universidade Federal do Pará. Ano XXX Nº 130. Abril e Maio de 2016

Memórias dos Anos de Chumbo

Relatos trazem as experiências dos perseguidos pelo
regime, assim como as estratégias de enfrentamento.

por Walter Pinto / Dezembro e Janeiro de 2014
foto Walter Pinto


Ao completar 50 anos, o Golpe Civil e Militar de 1964, que mergulhou o Brasil numa Ditadura de 21 longos anos, foi tema de uma série de eventos na Universidade Federal do Pará durante todo o ano. Um dos pontos altos da programação foi um seminário realizado em setembro, quando foi disponibilizado, para consulta e pesquisas, um banco digital com depoimentos de professores, alunos e servidores da UFPA que vivenciaram aquele período ditatorial.

O banco de dados faz parte do Projeto “Os Anos de Chumbo e a UFPA: memórias, silêncios, traumas e cultura educacional (1964-1985)”, coordenado pela historiadora Edilza Joana Oliveira Fontes e está sob responsabilidade da Comissão da Verdade da UFPA. O acervo é composto por relatos de 42 pessoas, gravados em filme pelo Laboratório de Pesquisa e Experimentação em Multimídia, da Assessoria de Educação a Distância da UFPA, e disponibilizado no repositório multimídia, no endereço http://www.multimidia.ufpa.br/jspui/simple-search?query=anos+de+chumbo+e+ufpa&submit.x=0&submit.y=0.

A história desse banco de dados começou com uma solicitação da Comissão Nacional da Verdade ao reitor Carlos Edilson Maneschy, de realização de um levantamento e identificação de documentos que tratassem da violação de direitos humanos no âmbito da UFPA. Coube à professora Edilza elaborar um projeto, com apoio financeiro do Gabinete da Reitoria e da Assessoria de Educação a Distância (AEDI), da UFPA, para efetivar as pesquisas.

Os documentos que serviram de base para o início do trabalho foram os da antiga Assessoria de Segurança e Informação, um braço do Serviço Nacional de Informação, implantada na UFPA durante a Ditadura Militar. Além de documentos e imagens, o projeto preocupou-se em ouvir pessoas que, de alguma forma, foram vítimas da repressão. Ainda em execução, a pesquisa formou um acervo que já pode ser considerado como a maior fonte de informações para o estudo da história da Ditadura Militar no Pará, mais especificamente no âmbito da UFPA.

Repositório Digital deve fomentar outras pesquisas sobre o período

Como metodologia da história, relatos orais são fontes preciosas para a análise da história do tempo presente. No caso específico dos relatos de professores, estudantes e servidores da UFPA, eles podem ser enquadrados como fontes para a História vista de baixo, a abordagem historiográfica que se preocupa em dar acesso às vozes dos excluídos pelos regimes opressores ou pelas estruturas de dominação das sociedades ao longo do tempo. Assim, ao privilegiar os excluídos, ela permite a realização de um reexame à história das elites. Segundo o historiador inglês Jim Sharpe, “a história de pessoas comuns, mesmo quando estão envolvidos aspectos explicitamente políticos de sua experiência passada, não pode ser dissociada das considerações mais amplas da estrutura social e do poder social”.

Conforme a coordenadora do projeto, além das ações já efetivadas, o acervo de relatos orais disponibilizado no Repositório Digital da UFPA pretende fomentar a elaboração de Trabalhos de Conclusão de Curso de estudantes de Graduação de História, Ciências Sociais e de outros estudantes interessados na análise de temas e períodos abordados pela pesquisa. Outro objetivo do projeto é, segundo Edilza Fontes, a formação de um grupo de pesquisa para o estudo da História do Tempo Presente no Pará pós-1964.

Os 42 relatos orais que formam, atualmente, o banco de dados digital “Os Anos de Chumbo na UFPA” revelam muito sobre os procedimentos da Ditadura Militar no Pará, mas também revelam experiências dos perseguidos pelo regime, assim como as estratégias de enfrentamento à Ditadura.

Um dos últimos relatos gravados para o banco de dados foi o do advogado, jornalista e mestre em Filosofia Flávio Augusto Neves Leão Salles, paraense, 64 anos, atualmente residente no Rio de Janeiro.  Filho de um casal de médicos sem participação ativa na vida política à época, Flávio Salles era, em 1967, calouro do curso de Direito da UFPA.

Em seu depoimento, ele diz que aquele era um tempo de mudanças políticas, de novas proposições no mundo, uma época de manifestações libertárias. Começando na França e logo se espalhando pelo mundo, as contestações estudantis levavam ao confronto direto com a polícia nas ruas. “O tempo era realmente quente. Uma palavra de ordem era suficiente para mobilizar os estudantes”, conta.

Das manifestações estudantis à guerrilha urbana com a Aliança Nacional de Libertação

Flávio Salles, que seria um dos personagens de destaque num ousado assalto à Sorveteria Gelar, em Belém, segundo uma estratégia de levantar fundos para o movimento de resistência, era frequentador da Casa da Juventude, um núcleo da Igreja que congregava os jovens e onde se discutiam também questões políticas. Assim, a Igreja teve também influência sobre a formação política do jovem Flávio Salles.

A passagem das manifestações estritamente estudantis para a guerrilha urbana ocorreu após a percepção de que o problema da educação não era o reitor da hora, mas o governo, algo muito maior. Flávio entrou para a Aliança Nacional de Libertação, a ALN, uma organização de guerrilha urbana. Logo que conseguiu uma arma, ele saiu do imobilismo ao assaltar, com um grupo de outros militantes, a mais famosa sorveteria de Belém, a Gelar, na Avenida Gentil Bitencourt. “O assalto deu errado, porque prenderam um dos participantes. Tive que sair daqui. Não voltei mais”, diz.

Com um passaporte falso, ele pegou a Belém-Brasília e rumou para São Paulo. Carlos Marighella estava articulando a viagem de um grupo de guerrilheiros para treinamento em Cuba. Flávio seria um deles. Mas a morte do líder revolucionário provocou um grande abalo psicológico na ALN. O treinamento foi cancelado.

Na ALN, ele comandava um grupo com cerca de 30 pessoas, divididos em dois comandos táticos, e tinha contato com todos os grupos de esquerda do Brasil. “O Rio de Janeiro hospedava a direção nacional de tudo quanto era organização nacional de esquerda. Eu havia criado uma infraestrutura completa de revitalização da ALN. Este, talvez, tenha sido o motivo de eu ser, então, o mais perseguido pela repressão militar”, conta Flávio Leão Salles.

Ele desempenhou um amplo papel na organização. “De que é que a guerrilha precisa? Precisa resolver os seus problemas, curar suas feridas e estar pronta para recomeçar”, explica Flávio. Dentro dessa premissa, cabia-lhe coordenar a área de socorro médico, ajudar nas questões de documentação, fornecer armas e trabalhar na impressão de panfletos. Isso tudo sem descuidar das ações de apoio em casos de falhas nas ações. Dentro da estrutura de organização da ALN, Flávio Salles recebia militantes de todas as organizações de esquerda, com exceção ao MR8.

A vida no limite da liberdade e do medo

“A vinculação às organizações de esquerda revolucionária eram voluntárias, ninguém era obrigado a se unir, ninguém era alistado ou tinha uma carteirinha que formalizava um vínculo. Engajado, o militante exercia uma função na organização, fosse ela qual fosse, e nela permanecia”, explica Flávio Salles. Quando algum militante caía nas mãos da repressão, todos sabiam que, logo em seguida, haveria sessões de tortura. O preso podia falar ou não falar. “O importante era acompanhar o trajeto dessa pessoa pela sala de tortura até chegar à prisão e colher informação sobre qual tinha sido o comportamento do preso, se tinha ou não revelado algo sobre a organização, sobre os militantes”, revela o ex-militante.

Ausência de informações gerava enorme ansiedade, só suprida a partir do momento em que outras pessoas que estavam também cumprindo pena passavam informações sobre o comportamento do preso. As informações podiam vir de várias maneiras, enrolada num cigarro, dentro de um palito, numa caixa de fósforo, de qualquer forma possível. “Era importantíssimo que nós soubéssemos como essa pessoa tinha se comportado. Ela podia causar sérias complicações para os outros militantes e para a organização. Então, tínhamos que ter as informações corretas para tomar medidas de segurança do grupo”, explica Salles.

Segundo ele, existem duas coisas que marcavam a vida de qualquer pessoa vinculado à uma organização de esquerda nos Anos de Chumbo. A primeira era o medo daquilo que lhe podia acontecer, diante da certeza que o tratamento, por parte da repressão, seria brutal. A segunda era o receio da sua própria reação, de como iria conviver no seu dia a dia com isso.

“A militância de esquerda que eu vivi era uma exposição constante a isso. Convivíamos com os horrores do medo. Aqueles relatos escatológicos, fio elétrico no ouvido, ferro quente, aquela coisa alimentava o medo e provocava uma tensão constante entre as pessoas. Era um nível de medo muito diferente do que sentia a sociedade, o cidadão comum. Mas jamais era motivo para você desistir”, explica.

Questionado se, hipoteticamente, pudesse voltar no tempo, faria tudo novamente, Flávio Salles não titubeia: “faria melhor, com certeza”. Para ele, os jovens brasileiros que pegaram em armas e lutaram contra a Ditadura deveriam ser vistos como Tiradentes é visto hoje em dia, como todos os movimentos que lutaram contra o Império Português, desde os índios. “O Estado Brasileiro foi imposto da praia para dentro. Os conquistadores derrotaram os índios e importaram as próprias instituições. Isso faz parte da identidade cultural do Brasil. O Estado Brasileiro é um Estado exógeno, imposto, não surgiu de uma necessidade natural. Esse talvez seja o grande problema que enfrentamos. Temos que ajustar esse Estado que nos foi importado. Se você arranhar a presidente, vai encontrar um imperador; se arranhar um governador, vai achar um capitão-geral. Pouca coisa mudou do Estado Monarquista Português para o Estado Brasileiro atual”, analisa Salles.

comentários (3)
História do Pará
escrito por Jorge Favacho, dezembro 14, 2014
Essa militância tem que partir da multidão que está oprimida, por tanto compromisso partidário, sindicatos corrompidos e falidos,manual de comportamento e outros afins, o povo não aguenta mais essa tortura institucionalizada.
Name: Jorge Favacho | Email: Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.
Anos de Chumbo no Pará
escrito por Fernando Edmundo Chermont Vidal, dezembro 30, 2014
Sou paraense e hoje moro em Brasília. Fui professor do Departamento de Engenharia Civil e Ambiental da UnB, durante 37 anos e 8 meses, aposentei em out/2013. Formei em !968 em Engenharia Civil na Escola de Engenharia da UFPA, hoje Centro Tecnológico. Realmente fiquei tocado ao rever em entrevistas pessoas com as quais convivi na época, lideranças dos movimentos contra o golpe,que quase castra uma geração, esperançosa, no fim dos anos 50 e aí para nosso espanto em 64 veio a noite. Mas seguimos vivendo, hoje já de cabelos brancos, mas com a alma e o coração ainda cheios de esperança de ainda vermos um Brasil mais justo, igualitário e fraterno.

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escrito por Alexandre Blanco, janeiro 05, 2015
Fico muito entusiasmado com relatos desse camarada, que não conheço, mas, me motiva a continuar acreditando na justiça, mesmo que esta justiça não atenda as exigências do povo po0bre, negro e jovem!!!!
Fico muito orgulhoso de saber que a "Coragem cabana" ajudou a lutar comtra um cenário desumano que foi os anos de chumbo.
sou estudante de Ciências Sociais 2013.

valeu!!!
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