Jornal da Universidade Federal do Pará. Ano XXX Nº 130. Abril e Maio de 2016

O som que vem de Igarapé-Miri

Em suas composições, Dona Onete trabalha tanto
elementos tradicionais quanto modernos.

por Juliana Theodoro / Dezembro e Janeiro de 2014
foto Alexandre Moraes



Mestre em Artes pela Universidade Federal do Pará, o professor Patrich Moraes resolveu desvendar, em sua dissertação, o feitiço caboclo de Dona Onete. Nascido em Igarapé-Miri, onde Dona Onete passou boa parte de sua vida, Patrich conheceu a cantora ainda quando criança, “ela foi professora em Igarapé-Miri e eu estudei na mesma escola em que ela lecionava. Sempre acompanhei seu trabalho com o Grupo Canarana. Desde essa época, ela já trabalhava com composições próprias”, lembra o pesquisador.

Apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Artes, sob orientação da professora Lilian Cristina Barros Cohen, a Pesquisa “O Feitiço Caboclo de Dona Onete: um olhar etnomusicológico sobre a trajetória do carimbó chamegado, de Igarapé-Miri a Belém”  analisou três músicas de três momentos diferentes da carreira de Dona Onete.

A primeira é a composição “Nosso Igarapé-Miri”, com o Grupo folclórico Canarana; a segunda, “Chuê, Chuá”, que fez parte da primeira edição do Festival Terruá Pará em 2006, e a terceira, “Carimbó Chamegado”, do CD “Feitiço Caboclo de Dona Onete”, lançado em 2012.

Patrich Moraes explica os diferenciais do carimbó produzido por Dona Onete, “ela trabalha com os elementos do carimbó tradicional e do carimbó moderno, usa tanto curimbós quanto bateria, sopros, teclado, assim como maracás. Em Belém, em alguns locais, ela se apresenta com um grupo musical tradicional, mas, nos festivais, ela vai com uma banda moderna”.

Dona Onete dizia que, em Igarapé-Miri, o Grupo Canarana não tinha instrumentos harmônicos, não tinha banjo etc. Para ela, o banjo só precisava de alguém que fizesse “aquele sonzinho”, desse um ‘pontiado’. “Esse ‘pontiado’ aparece nas três composições que analisei: na primeira, há duas guitarras – uma solo e uma base, e uma dessas guitarras fazia só esse desenho, a música inteira faz esse ‘pontiado’. Na composição do Terruá Pará, há o músico Luiz Pardal tocando violino e é ele quem faz esse desenho durante toda a música. Já na gravação do CD “Feitiço Caboclo de Dona Onete”, a composição “Carimbó Chamegado” também tem uma guitarra que fica fazendo esses desenhos. Isso é característico do carimbó dela, não se encontra esse desenho, que, no meu trabalho, eu chamo de ‘pontiado’, em outros carimbós”, diz o pesquisador.

Letras trazem imaginário e lendas amazônicas

De acordo com Patrich Moraes, o nome do carimbó de Dona Onete, “Chamegado”, nasceu de uma de suas viagens pelos rios do interior de Igarapé-Miri. Ao chegar às casas, Dona Onete perguntava se os moradores eram casados e, certa vez, um senhor respondeu que não gostava de utilizar a palavra “casado”. “A senhora está vendo aquela mulher ali? Eu tenho um chamego de 50 anos com ela”, disse ele. A partir dessa história, Dona Onete começou a dizer que seu carimbó seria uma espécie de chamego.

As músicas da cantora falam sobre o imaginário e as lendas da Amazônia, mais especificamente de Igarapé-Miri. Seu carimbó é mais compassado para poder contar as histórias do cotidiano dos ribeirinhos. “Ela usa todo o imaginário dos caboclos e dos negros, porque fez muitas pesquisas sobre esses temas para utilizar em suas aulas. Na época em que era professora de História, pesquisou sobre os negros que moraram em Igarapé-Miri, sobre as senzalas que existiram ali”, explica Patrich.      

“Quando analisei a música ‘Chuê Chuá’, apresentada no Projeto Terruá Pará, eu achava que essa composição era sobre a história de Belém, sobre a chuva da tarde. Mas, ao conversar com Dona Onete, ela disse que a canção era sobre uma pescaria feita em Igarapé-Miri. No meio da pesca, caiu uma chuva muito forte e eles se abrigaram em um lugar coberto por palha e o barulho dessa chuva fazia ‘chuaaaa’, por isso, o título da música”, conta o pesquisador.

“Tudo o que ela escreve está relacionado aos lugares onde viveu, primeiro em Rio das Flores, interior de Igarapé-Miri, e, depois, na cidade, onde começou a escrever particularidades dos lugares por onde andou.  Dona Onete  é um verdadeiro livro de cultura, principalmente de Igarapé-Miri”, avalia Patrich Moraes.

O pesquisador apresenta sua dissertação sobre a música de Dona Onete como um registro da identidade musical de Igarapé-Miri e acredita que, com o reconhecimento do carimbó como Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro, “outras pessoas já estão começando a se interessar pelo tema, o que deverá fortalecer a identidade a partir disso. As próprias escolas irão apresentar o carimbó para os alunos, enfim, a partir daqui,  inicia-se um novo rumo para o carimbó”.


comentários (1)
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escrito por Andra Ataíde, dezembro 12, 2014
Professora Lilian Barros, vc é uma grande profissional essa pesquisa sobre Dona Onete é de grande relevância para cultura paraense. Ainda hei de ser sua orientanda no Mestrado.
Andra Ataíde | Email: Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.

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