Jornal da Universidade Federal do Pará. Ano XXX Nº 130. Abril e Maio de 2016

Abridores de letras da Amazônia

As frotas de embarcações estão cada vez
menores, mas os abridores de letras
continuam requisitados.

por Brenda Rachit / Dezembro e Janeiro de 2014
foto Acervo do Pesquisador


As águas amazônicas não levam somente barcos: levam arte, experiências, tradição, cultura e expressividade. Em cada casco de embarcação, pode-se ver traços que revelam artistas e mestres, mais comumente conhecidos como “abridores de letras”. Esses são os atores principais no Projeto “Letras que flutuam”, coordenado pelas pesquisadoras Fernanda de Oliveira Martins e Sâmia Batista e Silva, do Instituto de Ciências da Arte (ICA) da Universidade Federal do Pará.

A pesquisa teve início com a professora Fernanda Martins, paulista, com formação em Type Design pela Basel School of Design, que, ao chegar a Belém, ficou impressionada com a arte das embarcações que viu no Ver-o-Peso. A partir daí, começou a registrar essas letras pelos lugares onde passava. Esse foi o tema da sua monografia de especialização em 2008. A partir daí, o projeto foi submetido a vários editais até que, em 2013, foi aprovado no Programa Amazônia Cultural e obteve recursos para ser executado.

O trabalho iniciou com o mapeamento de 41 abridores de letras de barcos nos municípios de Igarapé-Miri, Barcarena e Abaetetuba, o que constitui a primeira etapa da pesquisa, a qual foi projetada para alcançar quatro polos: Santarém, Marajó, Belém e região do Salgado. O projeto está em andamento desde julho de 2014 e conta com uma equipe multidisciplinar.

Segundo a pesquisadora Sâmia Batista, o objetivo da pesquisa é educar e conscientizar a nova geração a preservar essa tradição que está enfraquecendo. “Nós queremos repassar e mostrar que eles podem aplicar essa arte em outras coisas, em suportes mais atuais, como cartazes, grafite, serigrafia e, de repente, isso chegar a gerar renda”, explica a pesquisadora.

O primeiro momento da pesquisa foi feito por meio de entrevistas com esses artistas, além de registros em vídeo e fotografia. As entrevistas ajudaram a registrar como esse saber vem sendo repassado, a identificar as suas características e a perceber se essa atividade sustenta economicamente essas pessoas. “Nós definimos que seria muito importante conhecer a origem desse saber, a sua árvore genealógica”, explica Sâmia Batista.

A técnica é repassada dos pais para os filhos

Segundo Sâmia Batista, foi cogitada a hipótese de que essas letras surgiram a partir da tipografia Vitoriana, influência presente à época da exploração da Borracha na Região Amazônica. Eram letras muito utilizadas na Europa e chegaram aqui por meio de cartazes e rótulos vindos de Lisboa, Londres, Paris e, aos poucos, teriam sido incorporadas nos comércios e, por fim, nos barcos.

Porém a pesquisa mostrou que essa origem teve muito mais a ver com uma relação de trocas de visualidades entre os municípios ribeirinhos. “Vem um barco lá do Amapá e passa pelo Marajó, por Igarapé-miri ou por Abaetetuba, o abridor de letras enxerga-o e aquilo o influencia. Existe esse intercâmbio gráfico, pois os barcos passeiam por toda a região ribeirinha levando essa arte”, acrescenta Sâmia.

As entrevistas constataram também que, assim como na maioria dos saberes tradicionais, essa prática foi repassada de pai para filho. A maioria desses artistas aprendeu a abrir as letras apenas olhando. Segundo a professora Sâmia Batista, esses trabalhadores são muito talentosos, entretanto faltam oportunidades para explorar esse talento. A maioria prefere, por necessidade, trabalhar de carteira assinada em alguma empresa a depender unicamente da atividade de abridor de letras.

As pesquisadoras perceberam que esses homens aprenderam o ofício de abrir letras não por falta de escolaridade, pois a maioria possui segundo grau completo, mas fizeram-no por aptidão. Para a professora Sâmia Batista, muitos não ingressaram em um curso de nível superior por falta de oportunidade. Ela diz que o talento iria levá-los, naturalmente, a serem profissionais destacados no mercado.

Os donos de estaleiros que foram entrevistados contam que os pedidos de construção de embarcações diminuíram bastante e as frotas de embarcações estão cada vez menores. Porém os abridores de letras ainda são bastante requisitados. Segundo os artistas que se mantiveram em atividade, o ofício garante o sustento financeiro de suas famílias.

Barcarena: artistas estão abandonando o ofício

O projeto mostra que os abridores de letras de Igarapé-Miri e Abaetetuba mantêm os padrões da letra Vitoriana, mais trabalhada, com bastantes detalhes, enquanto em Barcarena e Belém, as letras parecem estar cada vez mais simples e limpas. “A nossa impressão é que a manifestação cultural está se enfraquecendo nos lugares em que a economia está mais globalizada”, observa Sâmia Batista. Entre as particularidades de cada região, foi percebido que, em Barcarena, há um número menor de abridores de letras, pois a maioria dos artistas deixou a atividade por um trabalho de carteira assinada. 

A pesquisadora diz que há uma influência cada vez mais forte das tipografias de aparelhagens, bastante comuns não só em Belém mas também nos interiores. Ela destaca o exemplo de Abaetetuba, onde os barcos de uso familiar estão sendo decorados com referências do grafite. “Já está surgindo outra estética e nós percebemos essa influência das aparelhagens, que é bastante presente há muito tempo”, afirma a professora.

A professora Sâmia Batista enfatiza que ainda não se vê nos pontos turísticos de Belém nada que remeta às letras de barcos e esta expressão deveria ser mais destacada no cenário local, tanto para os turistas como para os próprios profissionais da região. Para ela, “o nosso design ainda olha muito para fora e temos todas as nossas referências visuais e gráficas aqui mesmo, no entanto isso não é utilizado para reforçar o reconhecimento dessa identidade”. Ela explica que a letra é a base do design, sendo assim, a letra dos barcos pode ser uma grande influência para os artistas paraenses.

Entre as ações do projeto, está a participação desses artistas como reprodutores desse saber desenvolvendo oficinas para os jovens da comunidade. Tal ação possibilita que os moradores dos municípios percebam, de forma mais contundente, a importância dessa manifestação artística.

Sâmia Batista chama atenção para a importância dessas discussões, no sentido de preservar o patrimônio artístico e cultural da Região Amazônica. “O meu sonho é que isso seja trazido para a Universidade, discutido em sala de aula e mais e mais pessoas pesquisem, busquem, aprendam, para que tenhamos esses elementos da nossa identidade bem resguardados”, declara.

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