Jornal da Universidade Federal do Pará. Ano XXX Nº 130. Abril e Maio de 2016

Com o vento soprando a favor

Em 2013, a maior nota entre os cursos de Engenharia
Naval do Brasil, em avaliação do Sisu, foi da UFPA.

por Walter Pinto / Dezembro e Janeiro de 2014
foto Alexandre Moraes


Até recentemente, uma máxima, em tom de glosa, que se ouvia sobre a UFPA era que, apesar da sua condição amazônica, ela formava muitos doutores, mas não dispunha de know-how suficiente para construir um barco, mesmo que fosse um simples popopô, a pequena e característica embarcação a motor dos rios da Amazônia.

Há dez anos, porém, essa máxima perdeu o sentido, com a criação da Faculdade de Engenharia Naval. Instalado numa área de expansão do campus, com acesso por uma trilha de terra batida, em meio à espessa vegetação que acompanha as margens do rio Guamá, o curso de Engenharia Naval é quase desconhecido da maioria das pessoas que frequenta o campus de Belém.

Mas, apesar do pouco tempo de funcionamento, a faculdade, os seus professores e os alunos já têm muito o que comemorar. Entre outras conquistas, a graduação foi reconhecida pelo MEC, em 2011, com nota máxima, 5; em 2012, obteve nota 4 no Enade; em 2013, a maior nota entre os cursos de Engenharia do Brasil, em avaliação do Sisu, foi de um aluno da Engenharia Naval, da UFPA; os graduados estão encontrando um mercado aquecido, com 100% de absorção; em janeiro próximo, a faculdade entrará em nova etapa, com a realização da primeira seleção para o recém-aprovado curso de mestrado. Sem dúvida nenhuma, os ventos estão a favor da Engenharia Naval.

Mas, por que a UFPA levou tanto tempo para criar um curso desta natureza e importância numa região localizada na maior bacia hidrográfica do mundo? A resposta é simples: não havia massa técnica qualificada na região, toda ela concentrada no Sudeste. A superação desse obstáculo ocorreu de forma gradual e contou com a cooperação de docentes das Faculdades de Engenharia Civil e Engenharia Mecânica, entre os quais, Roberto Pacha e Nilton Soeiro, que, na década de 1980, organizaram um curso de Especialização em Transportes e Engenharia Naval. Um dos alunos, Hito Braga de Moraes, partiu para o mestrado no Rio de Janeiro. De regresso a Belém, tornou-se professor da Faculdade de Engenharia Civil, para a qual ajudou a criar uma cadeira voltada para os estudos navais.

Anos depois, ele deu continuidade à formação acadêmica naval no doutorado realizado na Inglaterra. Sua volta coincidiu com a decisão da Sudam de priorizar a Engenharia Naval entre as áreas fundamentais para o desenvolvimento da Amazônia. “Não que isso tenha sido um fator determinante, mas pelo menos foi algo que nos estimulou a pensar numa graduação própria. Então, escrevemos um projeto pedagógico, depois, melhorado e, finalmente, aprovado pela UFPA, em 2005, ano em que teve início a primeira turma. De lá para cá, formamos em torno de 60 engenheiros navais”, conta Hito, atual diretor da faculdade, a terceira implantada no Brasil.

Faculdade terá importância no desenvolvimento naval

Os primeiros passos de qualquer curso são sempre um desafio. No caso da Engenharia Naval, o desafio está sendo grande, porque a faculdade ainda aguarda a construção de laboratórios próprios.  Enquanto isso, os alunos utilizam laboratórios e equipamentos da Faculdade de Engenharia Mecânica. Mas o curso já conta com um Laboratório de Engenharia Naval, que dispõe de salas de aula e laboratório de informática dotado dos melhores softwares.

Com o vento a favor, a faculdade aguarda a construção de uma infraestrutura adequada para a prática do ensino e desenvolvimento de pesquisas, assim como a capacitação de pessoal naval e de aprimoramento de técnicas construtivas de embarcações. Um setor vital nesse processo será o Laboratório de Otimização da Produção e Planejamento em Estaleiro de Construção Naval (OPPE), cuja construção está quase finalizada. Junto ao OPPE, será construído um tanque de prova, dotado de gerador de ondas e praia de dissipação de ondas. Um resultado imediato do trabalho do tanque de provas será a adequação da potência dos motores às embarcações, que incidirá numa grande contribuição à economia de transporte, com redução no consumo de combustível e mais eficiência das embarcações. Outro laboratório importante será o Centro de Certificação Naval da Amazônia (CCENA), que desenvolverá trabalhos de avaliação e certificação de estabilidade de embarcações.


Para os estudantes, o curso possui muitos pontos positivos, e a expectativa de trabalho é vista como um dos principais. Para Cleber Lopes de Moraes júnior, aluno do 3º ano, a indústria naval na região está abrindo muitas portas e a tendência é aumentar ainda mais. “Existe mercado de trabalho não só aqui como também lá fora. O  Brasil tem um litoral imenso, muitos portos e  hidrovias. O mundo está aberto para nós. Além disso, há sempre a possibilidade da carreira acadêmica. Eu, por exemplo, pretendo continuar na pós-graduação, fazer o mestrado e o doutorado e, se possível, tornar-me professor da UFPA”, planeja.


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