Jornal da Universidade Federal do Pará. Ano XXX Nº 130. Abril e Maio de 2016

Resenha: Exposição Bauhaus.foto.filme

Celma Chaves de Souza Pont Vidal

por Celma Chaves de Souza Pont Vidal* / Dezembro e Janeiro de 2014
foto Klaus Stenzel/Free Images


Fundada em 1919 por Walter Gropius, na cidade de Weimar, na Alemanha, a Escola Bauhaus, mais conhecida por desenvolver a produção do design e da arquitetura, representou uma revolução na linguagem artística do início do século XX. Inovadora na forma de ensinar, buscou a renovação no processo de concepção do desenho e da arquitetura, adequando-os às novas formas que a produção mecanizada demandava, o que na Alemanha já vinha sendo desenvolvido desde a fundação da Deutscher Werkbund, em 1907.

As atividades da escola buscavam integrar variadas linguagens artísticas, como o próprio manifesto de fundação da Bauhaus já anunciara: a grande catedral da arte, onde se fundiriam arte, arquitetura e artesanato, em sua inicial versão expressionista. Esse gesto integrador e experimental logo passa a incluir os meios audiovisuais que na Escola iriam se oficializar em 1929, com o curso de Publicidade do fotógrafo Walter Peterhans, ano em que a fotografia foi introduzida como parte do currículo. No entanto as fotografias e os filmes expostos e apresentados na Mostra Bauhaus.foto.filme, que esteve aberta em setembro, no Museu do Estado do Pará, em Belém, comprovam que esta linguagem já fazia parte dos processos criativos e de comunicação dos alunos e profesores da escola.

As cinquenta fotografias expostas fazem parte do Arquivo da Bauhaus em Berlim, que possui mais de 40.000 fotografias, e representam material produzido por alunos e professores da Escola, entre os anos de 1921 e 1932, menos de um ano antes de seu fechamento. As imagens brindam-nos com as multifacetadas atividades que se desenvolviam dentro e fora da Bauhaus.

Apresentaram-se fotografias de professores conhecidos da Bauhaus, como Lazlo Moholy-Nagy, e do fotógrafo Peterhans, além de fotos de outros autores. As primeiras imagens apresentam alunos e professores em atividades nos ateliers e em momentos de lazer em outros espaços abertos. Nessas fotografias, percebe-se o caráter experimental e vanguardista desses registros, em tomadas e enquadramentos incomuns e em montagens criativas que, em muitos casos, antecipariam os artifícios digitais utilizados em edições de fotografias atuais.

Na segunda sala, viam-se registros de edifícios pouco conhecidos, como a Escola do Sindicato Geral Alemão, de 1930, de Hannes Meyer;  imagens da exposição da Bauhaus de 1926, com o mobiliário tubular de Marcel Breuer, aluno e posterior professor da Bauhaus; a casa experimental Haus am Horn, de 1923; e o interior da sede da Bauhaus em Dessau, de Walter Gropius e Hannes Meyer. Expôs-se também uma foto histórica e rara da construção original do Pavilhão de Barcelona de Mies Van der Rohe, construído para exposição internacional de 1929 e já demolido. Todas essas obras representando a máxima em que arte, arquitetura e técnica formariam uma unidade.

Na terceira sala, a linguagem da forma moderna  traduzia-se em experimentos em que técnicas distintas se mesclavam em fotomontagens, e nos meios audivisuais, cuja temática, mais uma vez, continuava sendo a integração da arte às novas mídias, em um momento em que a técnica fotográfica ainda não havia sido assimilada como uma linguagem artística.

A exposição finalizava com a mostra de entrevistas com antigos alunos e profesores da escola, filmes experimentais e documentários que apresentavam diferentes registros que giravam em torno de um tema caro à Bauhaus e aos arquitetos alemães desse período: a introdução da habitação moderna na sociedade europeia. Um dos filmes apresenta os emblemáticos CIAMs (Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna), por meio do registro do 4º congresso realizado em uma viagem de navio entre Marselha e Atenas. Um documento de valor inestimável, no qual Le Corbusier aparece, junto com outros arquitetos conhecidos, explorando e admirando a cultura clássica, referência em muitos de seus textos e obras de arquitetura.

Uma mostra que não deixa dúvidas do legado dessa escola para a cultura arquitetônica, artística e do design em todo o mundo, em uma época de rápidas transformações da e na cidade moderna, que a Bauhaus soube tão bem traduzir no ambiente ousado e original, incomum até mesmo para os padrões das cidades onde teve suas sedes, Weimar, Dessau e Berlim. Um novo olhar e uma nova prática que, de certa forma, ainda têm sua vigência nos dias atuais.


*Celma Chaves de Souza Pont Vidal – Doutora em Teoria e História da Arquitetura, docente da Faculdade de Arquitetura e do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da UFPA.


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