Jornal da Universidade Federal do Pará. Ano XXX Nº 130. Abril e Maio de 2016

Nós os negros


por Raymundo Garcia Cota* / Outubro e Novembro de 2014
foto Acervo Pessoal


Em meados dos anos setenta, viajava eu do Rio para São Paulo, de ônibus, sentado junto a um rapaz de cor preta. Conversa vai, conversa vem, ele vinha de Santa Catarina, onde moravam seus pais, mas ele trabalhava em São Paulo. Estava noivo e mostrou-me a foto da noiva. “Vai casar com uma loura?” “É, quero melhorar a raça”. Rimos juntos.

Dez anos depois, conversava eu com Beatriz Wahrlich, minha professora na FGV/Rio. Esta me confidenciou um fato ocorrido nos anos 50. Certo dia, seu colega, professor Guerreiro Ramos, telefonou-lhe chorando de alegria: “Beatriz, minha filha nasceu, sem meu estigma; ela é branca”.

O que os dois eventos acima possuem em comum? Tem muito a ver com a data que se aproxima, 20 de novembro, da Consciência  Negra. Os dois eventos trazem à tona dois temas da formação do povo brasileiro: o projeto de embranquecimento da raça do século XIX, que trouxe milhões de europeus para o nosso país no final daquele século e a teoria da democracia racial, muito em voga ao longo do século XX até nossos dias.

Os dois exemplos acima são emblemáticos por tratar duas pontas da cultura brasileira: um operário e um intelectual de renome (ISEB, FGV/RIO, South California University), ambos preocupados com o mesmo problema: a cor da pele. Ambos queriam remover esse estigma criado nos 500 anos de massacre de um povo trazido à força para as plagas brasileiras. Esse povo, após gerar toda a riqueza  da Colônia e do Império, foi simplesmente abandonado à própria sorte na República. Dependendo da circunstância, essa cor é enaltecida: quando se recitam as poesias de Castro Alves e de Cruz e Sousa; nas camisas do Botafogo, Flamengo e Corinthians; nas campanhas políticas em que o negro continua a reboque dos partidos como carregador de piano. Sua presença nos altos cargos da República ainda é exceção, apesar de representar 50% da força de trabalho da nação. O negro continua nos baixos cargos da República que ele ajudou a construir, assim como nas páginas policiais. A mídia bajula o negro quando consegue ser grande atleta, músico ou cantor de pagode; a negra sambista ou porta-bandeira de carnaval.

Sinto que o movimento negro arrefeceu após a Constituição de 88: um tipo de “já ganhou”! Ganhou o quê, cara pálida? Respeito? Dignidade? Oportunidade? Continuamos o processo de assimilação e aculturação. Será isso a democracia racial? Muitos negros têm vergonha de sê-lo, semelhantemente a Michael Jackson. Os livros escolares ainda não trazem modelos negros que identifiquem  a cultura negra. Bonecas e bonecos negros surgem muito timidamente nas lojas. A “chapinha” padronizou o cabelo liso como padrão universal. Será apenas moda? Moda, não, lembra o filósofo: a classe dominante simplesmente estabeleceu o padrão dominante.

Nossa cor e nossas características continuam nossos estigmas. Continuamos páreas sociais: ainda não fomos “assimilados” pelo povo brasileiro. Definitivamente, ainda não somos aceitos, mas apenas tolerados, após quase quinhentos anos de convivência com os brancos. Meu prezado amigo Milton Santos, muitas vezes, surpreendeu seus ouvintes ao contrastar a nós civilizados com os povos nativos, também páreas sociais: “Nós, os brancos...” E concluía seu raciocínio com sua fina ironia. A plateia não sabia o que fazer: se ria ou ficava séria. Milton, preto retinto, divertia-se com essa indecisão.

Nós, os negros, somos pretos e pardos. Mas continuam a nos chamar pelos apelidos de mulatos, morenos, neguinhos, negões, crioulos etc. Nosso cabelo, mais ou menos ondulado, é chamado de ruim, pixaim, sarará, chegado etc. O que fazemos ainda não é reconhecido, recebendo os epítetos mais humilhantes, o que pode ser assim resumido: isso é coisa de preto! Vicente Salles conta que o crítico José Veríssimo foi repreendido por Joaquim Nabuco, quando se referiu a Machado de Assis como “mulato”, após a morte deste último. Alguns escritores acham que Machado se sentiria ofendido com o tratamento de Veríssimo, já que mulato vem de mula; outros admitem que Machado se sentia branco e estava confortável como tal.

Nós os negros, pardos e pretos, não nos incomodamos de ser chamados assim. Porém, não admitimos os adjetivos que podem constituir crime. Depende também do tom. Aceitamos nego, negão, neguinho, contanto que seja tratamento carinhoso. Já o Neguinho da Beija Flor deverá ter cuidado quando for cantar nos EUA. Ao traduzirem seu nome, poderão chamá-lo de “nigger”, expressão pejorativa e ofensiva para os negros americanos, correspondendo a “crioulo”. Pode dar até morte.

O Estatuto da Igualdade Racial somente foi aprovado no final da Administração Lula, com pouca execução das medidas propostas. Ora, pessoal, existe lei que não pega e cai no esquecimento. O movimento negro adotou o modelo Luther King que, no máximo, conseguiu as cotas raciais universitárias nos EUA. Lá como cá, houve resistências à proposta. Lá o sistema assimilou a medida e a negrada foi convidada a compor a tropa de choque (em linguagem mais técnica: gerar mais valia ou lucro) do sistema capitalista. Razão tinha o movimento dos “panteras negras”, que foram além dos protestos nas Olimpíadas de 1968: subiam ao pódio, fechavam os punhos levantados e retiravam as medalhas. Chegaram a propor ao Congresso americano transformar o Distrito de Washington (60% negro) em Estado dos negros, embora a Casa Branca pudesse lá ficar.

Concluo refletindo que, para nós os negros, o próximo dia 20 de novembro ainda é um dia de elegia, e não de panegírico!

Raymundo Garcia Cota – PhD, professor da Faculdade de Ciências Econômicas da UFPA



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